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O escaravelho verde

“Alguns dos rapazes atravessaram o deserto. Dias ao sol. Noites ao frio. Sem comer, quase sem beber. E depois o mar, em lanchas rápidas, se você cai na água, você morre — já pensou? Eles viveram assim, com medo, sempre com medo, medo, muito medo, até desembarcarem em Espanha”

Ilustração: Suza Monteiro

Há alguns meses publiquei no jornal brasileiro O Globo uma crónica sobre um jovem togolês, Thomas Agbessi, que desapareceu misteriosamente do interior de uma furgoneta da polícia, em Málaga, depois de ter sido preso por falsificação de cartões de crédito. A polícia espanhola, incapaz de compreender o sucedido, interrogou outros prisioneiros, também africanos, que seguiam no veículo. Os rapazes contaram uma história que não convenceu os espanhóis: em determinada altura do percurso, Thomas ter-se-á despido, posto o que abraçou os amigos, invocou os ancestrais, e “desapareceu misticamente”, como um ágil e imponderável Houdini africano.

Dias mais tarde, recebi no Facebook uma mensagem de um angolano que afirmava ter testemunhado o milagre. Também ele seguia, assegurou-me, naquela furgoneta da polícia espanhola. Solto, por falta de provas, trocou Málaga por Lisboa. Marcámos encontro no largo de Camões, junto à estátua do poeta. Cheguei demasiado cedo. Sentei-me num banco a observar os turistas. Decorreram vinte minutos. Então, um jovem sentou-se ao meu lado. Era muito magro, com pequenas tranças espetadas, e um ar frágil, mas, ao mesmo tempo, muito determinado – quase feroz.

“O kota parece mais novo assim, vivo.” – Disse, com uma voz macia, um belo sotaque benguelense.

“Ao vivo.” – Corrigi.

“Isso, ao vivo. Nas fotografias eras mais zangado.”

Sentámo-nos a uma das mesas de um pequeno quiosque, bebendo mazagran e saboreando pastéis de massa tenra. Falámos sobre Angola, as mudanças políticas em curso, e a sensação de que nenhuma dessas mudanças está melhorando a vida das populações mais desprotegidas. Finalmente, perguntei-lhe por Agbessi:

“E Thomas, foi para onde?”

O jovem encolheu os ombros:

“O kota devia perguntar: Thomas, nós todos, os que estávamos naquele carro da polícia, viemos de onde? Essa é a pergunta certa.”

Olhei-o, num silêncio atordoado. “Do sofrimento”, disse o jovem, respondendo à sua própria interrogação. “Desaparecer é fácil. Desaparecemos muito, nós, os africanos. Somos treinados desde sempre para desaparecer. Difícil foi aparecer no interior daquela carrinha. Alguns dos rapazes atravessaram o deserto. Dias ao sol. Noites ao frio. Sem comer, quase sem beber. E depois o mar, em lanchas rápidas, se você cai na água, você morre – já pensou? Eles viveram assim, com medo, sempre com medo, medo, muito medo, até desembarcarem em Espanha.”
Calou-se. Terminou de beber o mazagran. Quando se entusiasmava, as pequenas tranças saltavam e erguiam--se na sua cabeça como se tivessem vida própria. E ele, como chegara a Espanha? O jovem sorriu:

“De comboio, desde Lisboa. E a Lisboa, cheguei de avião. A minha família juntou-se para me pagar a passagem. Eu queria estudar, mas não consegui entrar na faculdade. Um amigo me disse que em Málaga teria um bom trabalho. Fui. Só encontrei serviço de escravo. Paciência, fui escravo. Uma tarde estava numa praça, conversando com amigos, e a polícia veio e nos levou.”
Enquanto conversávamos chegaram cinco rapazes carregando batuques, guitarras e outros instrumentos musicais. Montaram dois microfones e começaram a cantar.

“Essa canção eu conheço.” – Disse o jovem: “O meu pai costumava cantar essa canção para mim, quando eu era menino.”

Sorri. Qualquer angolano da minha idade conhecia aquela canção.

“E Thomas?” — Insisti. — “Como é que ele saiu da furgoneta?”

“Não saiu. Só desapareceu.”

“Como assim?”
“Já falei. Desaparecer é fácil. Os pulas olham e não nos veem.”

“Então Thomas estava na furgoneta quando os polícias abriram as portas?”

“Claro. Os polícias abriram as portas, nós saímos, e Thomas saiu connosco. Passou pelos polícias, todo nu, e bazou. Foi-se embora.”

“Invisível?”

“Invisível.”

Olhou-me, muito sério, enquanto eu digeria a informação. Depois, tirou uma caixa de fósforos do bolso das calças e pousou-a sobre a mesa:

“Ele me deixou isto.”

Agarrei a caixa de fósforos e abri-a. Lá dentro brilhava a carcaça de um escaravelho verde.

“Que lindo! Um escaravelho?”

“A infância dele, do Thomas!”

Não respondi. Quem nunca guardou um rio no bolso das calças é porque jamais foi menino. Um rio, uma pena rara, um pôr do sol, o fulgor de um pirilampo, um cowboy de plástico com um buraco no peito, um escaravelho verde. A orquestra à nossa frente tocava agora o Mbirin-Mbirin. Duas moças, muito altas e muito louras, dançavam abraçadas, num demorado abandono.
“Portanto, o Thomas saiu para a rua invisível?”

“Invisível!” – Assegurou, imperturbável, o jovem angolano, enquanto sossegava com a mão direita as tranças rebeldes. – “Ele tinha muita prática nisso.”

“E o que você vai fazer com a infância dele?”

“Vou guardar. Sou o fiel depositário. Talvez algum dia ele volte.”

(Crónica publicada na VISÃO 1389 de 17 de outubro)