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A árvore que engoliu o tempo

Aquele é o tempo das árvores. Elas olham para nós e veem pequenos animais correndo rapidíssimos de um lado para o outro, envelhecendo e logo morrendo. Para uma mulemba, um homem é um inseto efémero

Ilustração: Susa Monteiro

Tenho um amigo, o fotógrafo Sérgio Guerra, que coleciona imbondeiros. Ao desembarcar em Luanda, vindo de Salvador, há quase duas décadas, Sérgio ficou fascinado com a estranha beleza dos raros exemplares de imbondeiros que ainda sobreviviam nos bairros periféricos da capital angolana. Certo dia viu um grupo de populares preparando-se para derrubar um exemplar enorme. Parou o carro, e, conversando com os operários, ficou a saber que aquele terreno fora vendido para construir uma casa. Foi ter com o proprietário e comprou o terreno. O imbondeiro continua lá, recuperando de um corte enorme, no tronco, dentro do qual cabe um homem deitado. Depois disso, muitas pessoas passaram a procurar o meu amigo, querendo saber se ele estaria interessado em comprar terrenos com imbondeiros dentro – e ameaçando derrubar os imbondeiros caso ele não comprasse os terrenos.

Acabou comprando mais uns tantos.

Estava em casa de Sérgio, numa manhã de cacimbo, quando surgiu um sujeito magro e nervoso, à procura do homem que colecionava imbondeiros. Sérgio interrompeu-o, um pouco irritado, para informar que não, que já não estava no negócio de comprar imbondeiros.

– Não é um imbondeiro – disse o homem: – É uma mulemba muito grande e está enfeitiçada.

Sérgio nunca se interessou por mulembas (Ficus thonningii), embora sejam árvores belíssimas, talvez porque no Brasil existam espécies muito semelhantes. Em contrapartida, a parte da magia chamou-lhe a atenção:

– Como assim, enfeitiçada?

O homem implorou que o acompanhássemos.

Se contasse não iríamos acreditar. Era importante ver o prodígio. Ele demorara para encontrar a casa de Sérgio. Tivera de apanhar dois candongueiros e de caminhar muito. Porém, se fôssemos de carro, não levaríamos mais de meia hora. Lá fomos.

Uma hora e meia depois chegámos a uma ruela estreita, de terra batida, já fora dos limites da cidade. Atrás de um muro alto erguiam-se as ramadas verdes de uma enorme mulemba. Alguém abriu o portão e entrámos.

Havia uma dúzia de homens reunidos em torno do grosso e intrincado tronco da mulemba. O ar estava carregado de perplexidade estática. Um dos homens, quase tão gordo como a mulemba, e com uma cabeleira igualmente densa e redonda, descolou-se dos restantes e avançou para nós:

– Senhores! Precisam ver isto!

Os outros afastaram-se, e vimos os golpes rudes abrindo caminho através das grossas raízes suspensas da imensa árvore. A lâmina de um dos machados quebrara-se ao bater em algo duro. Dentro da confusão de raízes emergia parte de uma forma sólida, em ferro, com perto de vinte centímetros de largura e uns trinta de altura.

– Incrível! – disse Sérgio: – É um cofre!

Lembrei-me de ter visto fotografias de diversos objetos de ferro encontrados no interior de árvores, ou meio devorados por elas: moedas, bicicletas, sinais de trânsito e até material de guerra. Se colocarmos uma corrente de ferro ao redor de um tronco grosso, este acabará por absorver a corrente. Imaginemos que alguém fotografe a árvore devorando a corrente, todos os dias à mesma hora, durante anos e anos. No final, colando as imagens todas, veremos a árvore devorando a corrente em poucos minutos: um filme de terror. Aquele é o tempo das árvores. Elas olham para nós e veem pequenos animais correndo rapidíssimos de um lado para o outro, envelhecendo e logo morrendo. Para uma mulemba, um homem é um inseto efémero.

Os camponeses escutaram-me de cabeça baixa, num silêncio atento, que eu ingenuamente confundi com respeito. Então, aquele que se parecia com uma mulemba soltou um breve muxoxo e concluiu que o terreno estava enfeitiçado. Sérgio sorriu:

– Tudo bem. Quanto quer por ele?

Ao fim de dez minutos chegaram a um preço. Nessa tarde, Sérgio Guerra tornou-se o feliz proprietário de um terreno sem préstimo e de uma enorme mulemba encantada. Regressámos a casa um pouco atordoados.

– O que vais fazer com a mulemba? – perguntei.

Sérgio acendeu um cigarro. Recostou-se na cadeira, olhando as lentas espirais de fumo que se perdiam no ar e suspirou:

– O que você acha que tem dentro daquele cofre?

– Um tesouro, uma maldição, uma receita de bolo de banana, as cartas de amor de um velho colono português?

– Amanhã mando alguém abrir o cofre.

Na manhã seguinte voltámos ao terreno, na companhia de Aristóteles Vapor, um antigo guerrilheiro que há muitos anos trabalha para Sérgio como motorista, mecânico e competente eletricista. Aristóteles estudou a árvore, bateu três vezes com os nós dos dedos na parede do cofre e finalmente sentenciou:

– Dá para cortar com um maçarico. Fácil.

Foi ao carro buscar o maçarico. Sérgio sentou-se numa pedra, à sombra da mulemba, a enrolar um cigarro, e antes que Aristóteles regressasse já havia mudado de ideias:

– Vamos deixar o cofre assim mesmo.

– Não queres saber o que está lá dentro?

– Um mistério – é isso que está lá dentro. Enquanto não abrirmos o cofre teremos sempre um belo mistério. Se o abrirmos, não sei o que teremos. Provavelmente, nada tão interessante.

Sempre que vou a Luanda, o meu amigo leva-me em visita à mulemba. Afastando as ramadas, ainda é possível ver o cofre. Encosto a palma da mão ao metal antigo e sinto o mistério a palpitar lá dentro.

(Crónica publicada na VISÃO 1381 de 22 de agosto)

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