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O fantasma de Rita Hayworth

– O que faz você nos meus sonhos, Rita? – Perguntou, num inglês atormentado. – Não se iluda, meu jovem. – Respondeu--lhe a atriz, num espanhol perfeito. – Quase sempre, os sonhos dos homens são o pesadelo das mulheres

Ilustração: Susa Monteiro

O velho afagou o cavanhaque, os olhos sonhadores perdidos num tempo remoto, e perguntou-me se eu tinha ideia de quem fora Rita Hayworth. O nome acordou em mim antigas imagens a preto-e-branco, com muito grão, de uma mulher belíssima sendo esbofeteada.

– A atriz?

– Margarita Carmen Cansino. O pai era espanhol, sabia?

Eu não sabia. Não sabia quase nada sobre Rita Hayworth. Também não compreendia por que motivo o velho se lembrara da estrela norte-americana. Eram cinco da tarde e chovia. Minutos antes, passeava de bicicleta quando vi o céu escurecer. Do outro lado da estrada, meio escondidas atrás de uma desordenada mancha de eucaliptos, erguiam-se as altas ruínas, ainda elegantes, embora muito desgastadas e ofendidas, do Grande Hotel do Lumbo. Pedalei até lá na esperança de encontrar abrigo e, ao mesmo tempo, curioso para ver de perto um edifício (ou o que resta dele) que há vários anos me fascina. Deixei a bicicleta encostada ao que numa outra era deve ter sido uma magnífica escadaria, e galguei os degraus precários até à larga varanda, atulhada de lixo.

Foi então que o vi. Estava sentado numa cadeira de verga, vestido de branco, sapatos, calças, camisa e casaco, com uma bengala de punho de marfim atravessada no regaço. Pareceu-me, todo ele, uma assombração benigna. Ofereceu-me um sorriso largo, de dentes muito brancos, que iluminou por instantes a penumbra húmida, como um rápido golpe de sol:

– Bem-vindo ao Grande Hotel do Lumbo! – Estendeu-me a mão. – Abdullah Ibrahimo, um sonhador distópico, ao seu serviço.

Contou-me que antes de ser transformado em hotel o edifício pertencera à família dele. Um dos trisavôs veio do Iémen para a Ilha de Moçambique, no início do século XIX, enriquecendo com a compra e venda de escravos e marfim. Algumas daquelas paredes haviam sido erguidas por esse avô antigo, numa época em que o governador-geral de Moçambique era o negreiro mais famoso do império português, e as escunas e os pangaios se sucediam, nos principais portos da colónia, carregando escravos.

O pai, à beira da bancarrota, fora forçado a vender o edifício, logo transformado em hotel. Em 1950, Abdullah Ibrahimo era um garoto (ainda) rico, que ocupava o tempo livre lutando boxe e vendo filmes, uns atrás dos outros, no único cinema que então funcionava na Ilha de Moçambique: o Cine Imperial.

Na noite em que completou 18 anos, Abdullah foi com um grupo de amigos assistir à estreia d’A Dama de Xangai, de Orson Welles, em que este contracena com Rita Hayworth – poucos meses antes de se separar dela.

Depois do filme, os rapazes decidiram jantar no Grande Hotel do Lumbo. Sentados a uma larga mesa, saboreando lagosta grelhada e bebendo cerveja, discutiram longamente a tragédia de Michael O’Hara, um marinheiro um pouco ingénuo, interpretado por Orson Welles, que, ao apaixonar-se por uma loira misteriosa, se vê envolvido numa acusação de homicídio. Como tinha um quarto cativo no hotel, Abdullah despediu-se dos amigos e foi dormir. Acordou a meio de um pesadelo no qual Elsa Bannister, a loira misteriosa, o tentava afogar num mar escuro, infestado de tubarões, batendo-lhe repetidamente com um sapato na cabeça. Deitara-se vestido. Ao sair para a varanda, em busca de uma brisa fresca que o ressuscitasse, a roupa amarfanhada e o cabelo revolto, deu com uma lua imensa erguendo-se, como um farol, sobre o vago torpor do arvoredo.

Uma mulher estava encostada a uma das colunas, descalça, vestida com um roupão do hotel, fumando. Abdullah Ibrahimo aproximou-se dela, em silêncio, convencido de que continuava estendido na sua cama e de que aquele era um desdobramento imprevisto do pesadelo inicial. Tão certo estava disso que, tendo-se colocado ao lado dela, se atreveu a pedir-lhe um cigarro. Rita Hayworth olhou-o com um sorriso triste, levou a mão ao bolso do roupão e estendeu-lhe um maço de Chesterfield. Abdullah tirou um cigarro, inclinou-se e acendeu-o no dela.

– O que faz você nos meus sonhos, Rita? – perguntou, num inglês atormentado.

– Não se iluda, meu jovem – respondeu-lhe a atriz, num espanhol perfeito. – Quase sempre, os sonhos dos homens são o pesadelo das mulheres.

Afagou-lhe o rosto num gesto distraído, voltou-lhe as costas e desapareceu nas sombras. Abdullah Ibrahimo retornou ao seu quarto, voltou a estender-se na cama e adormeceu. Despertou já o sol ia alto. Alguém socava com vigor a porta do seu quarto. Ergueu-se tonto, com a cabeça a latejar, e girou a maçaneta. Armando, o seu melhor amigo, entrou de rompante, sentou-se num sofá, traçou a perna, e sem se conseguir conter mais tempo largou a espantosa novidade:

– Sabes quem dormiu esta noite aqui, neste teu hotel, a poucos metros de onde estás agora? A Rita Hayworth!

– É impossível!

– É verdade! Veio com o marido, o príncipe Ali Aga Khan, visitar a comunidade ismaelita…

O velho terminou de contar a história e riu-se. Foi uma gargalhada forte e clara, que, por instantes, lhe devolveu a juventude. Logo a seguir, porém, sofreu um ataque de tosse. Esperei que recuperasse:

– Não a voltou a ver?

– Foi-se embora. Pouco depois, divorciou-se do Aga Khan. Naturalmente, nunca mais voltou a Moçambique.

– E o senhor?

– Eu?! Emigrei. Trabalhei cinquenta anos em Hollywood, num estúdio, como engenheiro de som. Mas nunca mais a vi. Voltei já velho a Moçambique. Por vezes, venho até aqui assistir ao pôr do Sol. Isso que os velhos dizem, que o tempo passa a correr, é a mais idiota das mentiras.

tempo não passa. Aquela noite continua aqui.

Tirou um cigarro do bolso do casaco:

– Chesterfield. Até hoje só fumo Chesterfield.

Já não chovia. Deixei-o ali, a fumar, e fui-me embora.

(Crónica publicada na VISÃO 1377 de 25 de julho)

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