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A melhor cama do mundo

Lá de cima avistou as luzes de uma casa, e a estradinha de terra batida que a ligava ao mundo. Conseguiu alcançar a picada, e em quinze minutos batia à porta. O proprietário, um homem mirrado, um pouco estrábico, estendeu-lhe uma mão desconfiada, dizendo chamar-se Alípio, e desculpando-se por não o poder alojar. A habitação era pequena e ele tinha seis filhas

Ilustração: Susa Monteiro

No instante em que abriu os olhos, Melchior sonhava com um bando de garças levantando voo a partir de uma salina. No sonho, a salina era um imenso descampado, de um branco sem mácula. Voltou a fechar os olhos. Parecia-lhe ter acordado “dentro de um sonho maior”. Foram essas as palavras que utilizou, muitos anos mais tarde, para me descrever o sucedido. Abriu de novo os olhos, viu-se outra vez cercado pela infatigável brancura, e só então se lembrou do que acontecera no dia anterior.

Fora caçar. Saíra de manhã muito cedo, na companhia de Kim e de Brazza, os seus dois perdigueiros albinos: “Regressei ao entardecer, à procura da carrinha, mas não a encontrei. Descobri nesse momento que estava perdido.”

Alguém que se descobre perdido, pensei, eis um belo oxímoro para definir a condição humana. Perdoem-me a divagação. Já a minha avó me acusava de sofrer de desvarios filosóficos: “Tens o juízo inflamado, rapariga. Vais acabar artista, como o teu avô, que era tão inútil quanto chuva no mar.” Continuemos. Melchior foi à procura da carrinha e não a encontrou. Marchou durante duas horas, furando a custo por entre o capim-elefante, mais alto do que um homem, cada passo na lama uma agonia, lutando para não perder as botas, e depois das botas os pés, até que a noite engoliu todas as cores, e o mato eclodiu numa profusão de piados, choros e uivos e estalidos.

“Só conseguia ver o fulgor dos cães.” – Disse-me. – “Graças a Deus, o pelo deles brilhava à noite. Foi esse brilho que me salvou.”

Os cães conduziram-no a uma pequena colina. Lá de cima avistou as luzes de uma casa, e a estradinha de terra batida que a ligava ao mundo. Conseguiu alcançar a picada, e em quinze minutos batia à porta. O proprietário, um homem mirrado, um pouco estrábico, estendeu-lhe uma mão desconfiada, dizendo chamar-se Alípio, e desculpando-se por não o poder alojar. A habitação era pequena e ele tinha seis filhas. O cavalheiro teria de passar a noite no armazém do algodão. Melchior concordou. Não precisava de muito, disse, apenas de uma esteira onde se estender e de um balde com água para lavar o rosto.

“Nunca poderia imaginar”, disse-me Melchior, “o que encontraria ali: a melhor cama do mundo.”
Três das filhas de Alípio trouxeram lençóis lavados, que estenderam sobre uma enorme pilha de flocos de algodão recém-colhidos. Uma das meninas, Natália, prendeu um mosquiteiro a um gancho, numa das traves do teto, enquanto alertava Melchior para sacudir as botas, de manhã, antes de as calçar, porque os lacraus se escondiam muitas vezes dentro delas. Era uma recomendação desnecessária, que, no entanto, o caçador agradeceu enternecido, pois lhe pareceu quase uma declaração de amor.

Nessa noite, deitado na melhor cama do mundo, Melchior dormiu mal. Adormecer seria perder o momento. Ali, com o corpo suspenso nos flocos de algodão, respirando o perfume fresco do lençol, veio-lhe à memória o rosto brilhante de Natália e ocorreu-lhe que seria dela o frescor a citrinos.

Acordou várias vezes. Através de uma estreita janela aberta sobre a porta do armazém assistiu à euforia das estrelas. Viu-as, ou sonhou que as viu, dançando na noite como abelhas bêbedas. No lusco-fusco incerto da alvorada, deu com uma coruja perseguindo uma cobra, e compreendeu então, com brusca clareza, que estava prestes a nascer de novo. Foi o que me disse, assim mesmo, com estas palavras.

Portanto, Melchior despertou, manhã cedo, sonhando com garças, abriu os olhos e voltou a cerrá-los, achando que caíra num sonho maior, e ao reabri-los, enquanto se recordava de tudo o que sucedera no dia anterior, viu Natália, vestida de branco, tendo aos pés os dois perdigueiros albinos.

“Todos nós nascemos pelo menos duas vezes.” – Assegurou-me, muito sério. Para ele, o segundo nascimento aconteceu na manhã em que acordou na melhor cama do mundo e viu a minha avó junto à porta do armazém, sorrindo para ele.

Natália – uma mulher prática e alegre, que atravessou a vida sem nunca se comover com um pôr do Sol –, troçava dele: “Jogámos à sorte, entre as irmãs, a quem calharia acordar o caçador. Calhou-me a mim e lá fui, contrariada. Nunca gostei de caçadores. Não sorri para ele, é mentira, nem sequer o cumprimentei. Estendi-lhe uma caneca de esmalte, com café quente, e fui-me embora.”

Casaram-se três meses depois, e foram viver para Luanda, onde o meu avô abriu um estúdio de fotografia. Era suposto ganhar a vida revelando e ampliando as fotografias dos clientes, fotografando casamentos ou batizados, mas Melchior passava mais tempo ocupado com a própria arte, de forma que a loja abriu falência e teve de ser Natália a lutar pelo sustento da família, confecionando e vendendo doces.

Melchior deixou-me as fotografias. São, como se costuma dizer, o retrato de uma época. Infelizmente, não há uma única imagem daquele armazém de algodão onde o meu avô nasceu pela segunda vez. Onde, afinal, começou a minha história.