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A imbondeira escandalosa

Levou um escadote e dois assistentes. Tirou as medidas. Regressou duas semanas depois com um belo vestido, em cores vivas, do tipo “tomara que caia”, que se ajustou perfeitamente ao corpo da imbondeira, descendo sem uma ruga até quase alcançar o solo

Ilustração: Susa Monteiro

A chamada Estrada dos Imbondeiros estende-se ao longo do município do Chongoroi, na província de Benguela, em Angola, sendo muito percorrida por camiões pesados de mercadorias, em viagem para o Lubango. Foi aqui que tudo começou. Certa tarde, um velho camionista, Justino Paciência Mango, mais conhecido por Juju, encostou o seu veículo e saiu para aliviar a bexiga. Foi então que a viu, à imbondeira, erguida a não mais de trinta metros da estrada. Aproximou-se, duvidando dos próprios olhos: no gigantesco tronco da árvore abria-se um escandaloso sexo de mulher.

Juju riu-se. Fez algumas fotos do curioso fenómeno com o telemóvel, e enviou-as a vários colegas e amigos. Um mês mais tarde, a imbondeira já era ponto de paragem obrigatório dos camionistas, que aproveitavam para esticar as pernas, enquanto trocavam piadas, e se deixavam fotografar em frente à imensa representação vegetal da origem do mundo. Poucas semanas mais tarde, começaram a instalar-se barracas com comidas e bebidas.

O pastor Lívio Passarinho, da Igreja do Santo Sacrifício, soube do caso através da esposa de um camionista, que, enojada, lhe estendeu o telemóvel, mostrando-lhe um nu frontal da escandalosa imbondeira. Passarinho percebeu logo que havia ali o dedo trocista do demónio.
O brasileiro chegara a Angola dois anos antes, com três outros pastores cariocas, conseguindo em poucos meses conquistar uma legião de fiéis. No Chongoroi, encontrou montado um extraordinário “circo lúbrico”, conforme explicou numa mensagem ao bispo da sua congregação.

Desesperado, começou por exorcizar a imbondeira, a qual protestou aos brados, em bom latim, aramaico e umbundo, recusando-se, contudo, a ocultar a prodigiosa indecência. O esconjuro teve o condão de atrair ainda mais gente. A essa altura, a fama da árvore já se espalhara pelo país. Veio, desde Luanda, uma equipe de cinema, com a intenção de rodar no local um filme pornográfico. Passarinho arregimentou um grupo de cinquenta fiéis, cercaram o obsceno tronco, e enfrentaram com cânticos a ira do realizador, e as vaias trocistas de três musculosos atores, dois dos quais totalmente nus.

Nessa noite, o pastor sofreu um sonho. Jesus apareceu-lhe montado num cavalo alado, e, sem dizer uma palavra, lançou-lhe para os braços um vestido azul, depois do que voou para longe. Na manhã seguinte, o brasileiro começou à procura de um alfaiate. O escolhido foi Anastácio Corte Real, sujeito plácido, de poucas palavras, ao qual a guerra comera uma das pernas e que, desde então, montara atelier no Cazenga.

Anastácio não mostrou surpresa com a encomenda. É certo que nunca antes vestira uma árvore, muito menos uma imbondeira, mas, como explicou na sua voz sossegada, “há sempre uma primeira vez para tudo”. Quis conhecer a cliente. Levou um escadote e dois assistentes. Tirou as medidas. Regressou duas semanas depois com um belo vestido, em cores vivas, do tipo “tomara que caia”, que se ajustou perfeitamente ao corpo da imbondeira, descendo sem uma ruga até quase alcançar o solo.

Quem não gostou da vestimenta foram os camionistas e os vendedores de comes e bebes. Estes últimos, porém, depressa se conformaram, pois, despida ou vestida, a imbondeira continuava a atrair curiosos.

Foi então que uma das devotas descobriu uma segunda imbondeira orgulhosamente sexuada, e Anastácio lá veio de Luanda, contratado para confecionar mais um vestido de grandes dimensões. A seguir, outra senhora denunciou a existência, num bosque próximo, de uma mulemba, ou melhor, de um mulembo, priápico e exibicionista, verdadeira afronta aos valores tradicionais e à moral cristã, para o qual o alfaiate desenhou umas calças magníficas, num estilo clássico, transformando a árvore num respeitável cavalheiro à moda antiga.

Em pouco tempo já havia no Chongoroi mais árvores vestidas do que despidas. Lívio Passarinho começou a ter sonhos lascivos com mangueiras e abacateiros. Qualquer árvore nua lhe suscitava maus pensamentos. Não fosse a intervenção dos poderes públicos, que o prenderam e deportaram, dissolvendo a igreja, Passarinho teria vestido todas as florestas do país, incluindo o Maiombe.

Anastácio recebeu a notícia da deportação de Passarinho com certo alívio. Estava cansado de vestir árvores. Hoje, no seu atelier, lá no Cazenga, só veste pessoas. Pessoas muito gordas, mas pessoas.

(Opinião publicada na VISÃO 1369 de 30 de maio)

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