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Os universos suspensos da Síria

Caía o sol, no segundo dia de confrontos, quando um dos santos se lembrou de arrancar um pedaço da coluna que o elevava acima da perdida humanidade, lançando-a contra a cabeça do vizinho. Em poucos minutos instalou-se um imenso caos. A crónica de estreia de José Eduardo Agualusa na VISÃO

Ilustração: Susa Monteiro

Santo Alípio, o estilita, permaneceu em pé, orando, durante 54 anos, no alto de uma grande coluna de pedra. Por fim, as suas pernas cederam e ele teve de se deitar, mas não desceu da coluna. Continuou assim, até morrer, durante mais 14 anos. Abandonou este mundo – reza a lenda – aos 118. Quando alguns devotos subiram à coluna para retirar o corpo, tiveram dificuldade em distinguir onde acabava a carne e começava a pedra, de forma que cortaram a cabeça do santo e a levaram para um mosteiro suspenso no topo de uma altíssima torre de pedra, no Monte Athos, no noroeste da Tessália, onde ainda se encontra.

Os estilitas, também chamados santos do pilar, inspiraram-se no exemplo de Simeão Estilita, o Velho, que se alçou para cima de uma coluna, em 423 d.C., e por lá ficou, orando e jejuando, durante trinta e sete anos.
Conta-se que numa certa cidade síria – Heliópolis, segundo uns; Palmira, na opinião de outros –, eram tantos os devotos subidos em colunas, discutindo teologia uns com os outros, em altos brados, que se diria uma cidade suspensa. Ou talvez várias cidades suspensas, dado que cada um daqueles aspirantes à santidade provinha de um diferente território do mundo cristão. Pensando melhor, creio até ser legítimo falar em vários universos em suspensão, pois se um estilita defendia determinada cosmogonia, o seguinte, diante dele, propunha outra, um pouco diversa, sendo que com o correr dos anos estas diferenças, ao invés de se reduzirem, se foram aprofundando.
Certa manhã, despertando de sonhos convulsos, os ascetas viram descer um vasto e denso nevoeiro, que logo os separou da terra. Olhando para baixo apenas distinguiam nuvens, como se as colunas tivessem crescido durante a noite. Contudo, ao invés de se sentirem arrebatados aos céus, orando e regozijando-se em conjunto, todos aqueles piedosos universos em suspensão se levantaram uns contra os outros. Durante dois dias trocaram amargos impropérios e maldições. Depressa se tornou claro, porém, que as palavras eram arsenal insuficiente para tão santa cólera. Por um lado, por mais afiadas que estas fossem, não conseguiam cortar a dura pele dos inimigos; além disso, quanto mais os ascetas gritavam, menos se ouviam uns aos outros, primeiro devido ao alarido geral e depois, a partir da manhã do segundo dia, porque, estando uns roucos e outros já totalmente afónicos, não conseguiam senão soprar indecisas imprecações, que se dissolviam no ar húmido antes mesmo de alcançarem a coluna adversária. Quem atravessou a floresta de pilares, afundada na bruma, naquele segundo dia de guerra, experimentou a sensação de ter, movendo-se sobre a cabeça um “rio de serpentes voadoras”, conforme testemunho do poeta Inru Al Kais.

Caía o sol, no segundo dia de confrontos, quando um dos santos se lembrou de arrancar um pedaço da coluna que o elevava acima da perdida humanidade, lançando-a contra a cabeça do vizinho. Em poucos minutos instalou-se um imenso caos.

Uma semana após o início daquela violenta dissensão aérea, eram já inúmeros os feridos e mortos. Havia cabeças rachadas, peitos sangrando, narizes como grossas batatas vermelhas. Alguns dos beligerantes tinham perdido um dos olhos, ou mesmo os dois, e lançavam as pedras por puro instinto, sendo essas as mais perigosas, pois a meditação por demorados anos, no topo de colunas, atrofia os músculos, apura a intuição. Algumas das colunas, cruelmente delapidadas, haviam perdido os varandins, e decresciam a olhos vistos.

Decorrido um mês, os sobreviventes já se batiam a menos de dois metros do chão, com tão escassa energia que a maior parte das pedras não chegava a alcançar carne alheia. Pedrada a pedrada, o exercício ia encolhendo as colunas, e reduzindo assim a distância que separava os santos dos simples pecadores. Estes, que se haviam reunido a uma distância segura para assistir ao conflito, troçavam e faziam apostas.

O vencedor, um líbio nu, magro e torcido como um arame, saltou da sua coluna ao trigésimo sétimo dia. Uma só pedra o atingira, na testa escura. Um fio de sangue emergia do ferimento, dividindo o corpo do asceta em duas metades idênticas. A turba afastou-se, e o homem passou e sumiu-se, levando consigo o mistério do cosmos.
Então um menino apontou na direção das desalentadas ruínas, com um dedo inocente, e disse, dirigindo-se ao avô: “Veja, avô: tanta pedra boa para construção.”

Terminava ali toda uma era. Uma outra começava. Muitas guerras aconteceriam depois daquela, mas nenhuma tão elevada.

(Crónica publicada na VISÃO 1361 de 4 de abril)

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