Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Existencialismo

José Luís Peixoto

  • 333

(...) também poderia acordar no corpo de uma chinesa ou de uma indiana. Nesse caso, haveria dificuldades de outra ordem

Eu tinha três caixotes cheios de livros no carro. Na noite anterior, já tarde, depois de um dia inteiro, tive preguiça de carregá-los até ao elevador e, após sete andares, abrir-lhes a porta de casa. Ainda cedo, em calções e chinelos, a primeira coisa que me lembrei de fazer foi ir buscar os livros, antes que a manhã aquecesse demasiado. No elevador, desci sério e despenteado, reflectido por espelhos.

Às vezes, penso: e se um dia acordasse no corpo de outra pessoa? A minha consciência tal como é, mas no corpo de outra pessoa.

De repente, acordar, espreguiçar-me e ter, por exemplo, o corpo do Cristiano Ronaldo, a vida do Cristiano Ronaldo, as pessoas virarem-se para mim e chamarem-me Cristiano Ronaldo, falar com a voz dele, aproximar-me de uma bola e, sem esforço, fazer aqueles truques. E depois? E o que é que faria, sendo o Cristiano Ronaldo, mas tendo os meus pensamentos e estando na minha casa? Se saísse à rua, toda a gente se havia de admirar: o que estava o Cristiano Ronaldo a fazer ali sozinho? Havia de juntar-se uma multidão. E será que as minhas roupas lhe serviam? Duvido. O Cristiano Ronaldo, no meu bairro, embrulhado num lençol, daria notícia certa no telejornal. O lado positivo desse escândalo, seria a possibilidade retomar a vida, voltar aos treinos. Ao acordar na minha casa, dentro do seu corpo, não teria os seus números de telefone. E a minha vida? Havia de sentir muita falta dela. Será que, algures, existiria o meu corpo habitado pela consciência do Cristiano Ronaldo? Essa troca não seria boa para nenhum dos dois.

Como Cristiano, mas com a minha consciência, imagino-me terrivelmente só, sentado num sofá enorme, os seus cunhados a falarem para mim e a serem-me desconhecidos.

Naquela manhã, ainda antes de sair, através do vidro da porta do prédio, vi um cachorrinho branco deitado sobre a calçada, um caniche de pêlo encaracolado, muito sereno e perfeito, com as pernas muito direitas, com um casaquinho azul. Enquanto abria a porta, pensei que era uma pena não ter trazido o meu telemóvel. Aquela imagem daria uma bela foto: o fundo geométrico da calçada e a tranquilidade terna do cachorrinho.

Aproximei-me para lhe fazer uma festa e vi que tinha os olhos meio abertos, a boca estava meio aberta e o topo da cabeça escorria um fio de sangue já coagulado.

Acordar no corpo do Cristiano Ronaldo seria uma probabilidade remota. A acordar no corpo de alguém, se a matemática estiver minimamente certa, seria muito mais provável que acordasse no corpo de um chinês ou de um indiano.

Nesse caso, existiria a dificuldade da língua e dos alfabetos. Seguindo o mesmo raciocínio também poderia acordar no corpo de uma chinesa ou de uma indiana. Nesse caso, haveria dificuldades de outra ordem.

À porta do meu prédio, olhando para cima, estão as varandas de oito andares. O mais certo é que o cão estivesse numa delas e, desconhecendo a altura que o esperava, tenha saltado. Assim que vi a sua boca semiaberta, a mostrar uma tira da língua, fui logo capaz de imaginar todos os detalhes, como se passasse instantaneamente para o seu corpo: Era um animal brincalhão, daqueles simpáticos, que abanam o rabo de roda das pessoas, daqueles que saltam.

O momento do seu voo no ar.

A imagem da sua queda vista pelos seus olhos. E vista de longe: um caniche branco, com um casaquinho azul, a cair de uma varanda, lenta e longamente, uma imagem parada.

O seu choque com o chão: o som da carne. Um som isolado de todos os outros, como se acontecesse um momento de silêncio absoluto para se escutar apenas aquele som, o som da carne.

E depois, no chão, não ficou logo naquela posição tão direita, esperneou.

Em momentos da adolescência, passou-me pela cabeça a ideia de que talvez fosse imortal. Nada me garantia que viesse a morrer. Daqui a um mês faço 38 anos. A esse respeito, em concreto, não tenho mais garantias do que tinha.

Por três vezes, carregado com caixotes cheios de livros, passei ao lado do caniche.

Não tive coragem de tirá-lo do meio do passeio. Tentei não olhar para ele, mas nunca fui capaz. Acabei sempre por vê-lo na fronteira do meu campo de visão, o seu vulto. Em cada uma dessas vezes, imagineime no lugar dele.