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A rua das Flores

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Ocupada, durante todo o século XIX, por mercadores e ourives, nos idos de setenta do século passado, a rua das Flores entrou em acentuado declínio. Hoje, graças ao enorme afluxo turístico, voltou a ter vida

A rua das Flores começou a ser construída, por iniciativa do rei D. Manuel I, em 1518, ao longo dos vergéis (jardins) do bispo, que era o D. Pedro da Costa, grande devoto de Santa Catarina de Alexandra. Daí o nome inicial: rua de Santa Catarina das Flores.

Hoje é frequentada, sobretudo, por turistas que procuram as suas esplanadas e se deliciam com os artistas de rua que por ali exibem os seus dotes de músicos, cantores, malabaristas.

Num passado recente, durante todo o século XIX, começos do seguinte, foi a rua dos mercadores de roupa feita e dos ourives e, por este último motivo, popularmente conhecida pela rua do Ouro. Uma cantiga popular, muito em voga nesses tempos, dizia isto: “Fui à França p’ra ver dança; / à Inglaterra, vapores; / ao Porto, p’ra ver ourives;/ a Esposende os meus amores.”

Para quem entrava na rua das Flores pelo lado da estação de S. Bento, os ourives ficavam, todos, à mão direita e os mercadores do lado esquerdo. Nos começos do século XX era muito popular na cidade uma outra cantilena que dizia: “Adeus cidade do Porto; / adeus rua das Flores. / De um lado são só ourives; / do outro são mercadores.”.

Nos idos de cinquenta do século XIX a rua das Flores foi, no Porto, uma espécie de Meca do Romantismo. As duas mais curiosas revistas de versos, dessa época, que se publicaram em forma de livro, “O Bardo” e “A Grinalda“, tiveram como patrocinadores comerciantes da rua das Flores. António Pinheiro Caldas, mercador de panos e algibebe, foi o responsável por “O Bardo“, que se publicou entre 1852 e 1854. Nogueira Lima, ourives, sustentou “A Grinalda“, entre 1855 e 1869. Escusado será dizer que os dois negociantes faliram…

Carlota Lady Jackson, a célebre e culta viajante inglesa, esteve na rua das Flores em 1873 e deixou-nos dela (da rua) este pitoresco retrato: “… é a mais frequentada do Porto. É comprida e estreita demais para o tráfico que tem; mas o pavimento é bom. Aos sábados vai cheia de gente, como qualquer rua de Londres. Pelo meio vão a par, e chiando, dois abomináveis carros, puxados a bois. De vez em quando um cavaleiro arrisca-se a escoar-se por entre eles, serpeando por aqui e por acolá; e, às vezes, depara-se-nos uma carruagem encravada entre os carros, com a parelha a esbravejar à beira dos pacientes bois. Mas não há nada que lhe fazer porque ali (no Porto) não é permitido picar o gado…”

A partir dos idos de setenta do século passado, a rua das Flores entrou em acentuado declínio. A maior parte dos seus edifícios, alguns históricos e de uma beleza arquitetónica indiscutível, entrou em decadência quando não mesmo em ruína. Começaram por desaparecer os algibebes. E logo a seguir foram os ourives, que eram o ex-líbris da rua. Mas o enorme afluxo turístico dos últimos anos contribuiu para que os interesses imobiliários se voltassem de novo para a rua das Flores e a artéria remoçou-se, é outra e, o que é muito importante, está viva, voltou a ter gente.