Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A estátua do Porto

Histórias portuenses

Lucília Monteiro

Uma obra, feita por um pedreiro, mas que continua a ser atribuída, erradamente, a um escultor

No dia 23 de março de 1816, a Câmara do Porto comprou, por 31.265$960 reis, à Real Companhia dos Vinhos do Alto Douro, o palacete da então praça Nova das Hortas, a atual praça da Liberdade, que fora residência do abastado negociante Inácio Leite Pereira de Almeida Morais, para nele instalar todos os serviços municipais que, à falta de sede própria, tinham, até aí, ocupado os sítios mais inverosímeis, desde a Casa Pia, à Batalha, às antigas instalações do desaparecido colégio de S. Lourenço, dos Jesuitas, à Sé. Feita a compra, urgia fazer as necessárias obras para adaptar uma residência burguesa a um edifício de serviços. Entre as muitas alterações que foi preciso fazer, os edis dedicaram especial atenção à imponente fachada granítica do imóvel.

Era fundamental que desaparecesse aquele ar de palácio e lhe fosse dado o aspeto de um edifício de serviços. Para isso foi mandado colocar, no tímpano da fachada, um belíssimo brasão da cidade, ladeado de florões, tudo belamente cinzelado em duro granito da região, que havia ornamentado, antes, a célebre Fonte da Arca, que funcionou na dita praça e que, entretanto, fora demolida. Esse brasão e florões podem ser vistos, ainda hoje, no Roseiral do Palácio de Cristal para onde os recolheram quando em 1916, cem anos depois de lá se instalar a Câmara, se demoliu o edifício da praça da Liberdade para a abertura da avenida dos Aliados.

Outro melhoramento introduzido na fachada do antigo palácio de Inácio Leite Pereira, foi a colocação na parte mais alta da fachada do palacete de uma estátua que fosse representativa da cidade: o Porto. E assim se fez. O trabalho foi encomendado ao mestre pedreiro João da Silva que cobrou pela obra a quantia de “ … trezentos e quarenta três mil e duzentos reis ( 343$200 ) em metal que lhes seriam pagos em três prestações iguais, sendo o primeiro adiantamento e os mais consecutivos feito no principio de cada hum dos três meses da data em que se obriga a dar a dita figura pronta…”

Tudo isto que é, praticamente, dos nossos dias, está escrito e devidamente documentado. Ainda não há muitos dias, num dos livros de despesas da Câmara, relativo ao dia 19 do mês de setembro de 1818, escrito em impecável cursivo, vimos isto: “… ao mestre João da Silva, pagamento de 43$200 reis, importe do resto da obra da figura do Porto que rematou a frontaria do Paço do Concelho…” Pois, apesar da documentação existente, que não engana, ainda há quem continue a atribuir ao escultor João Alão, a estátua do Porto, agora exposta, na praça da Liberdade, em frente ao edifício da filial do Banco de Portugal.