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A mulher-homem

Histórias portuenses

Germano Silva

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Nasceu mulher, mas andou vestida de homem até aos vinte anos. A história, comovente, da mulher-homem, que há 140 anos apaixonou o Porto

Numa tarde primaveril de março de 1871, o chefe da primeira esquadra de Policia do Porto, José Ribeiro dos Santos, entrou numa taberna da rua do Bonjardim, pertencente a António Joaquim da Silva, onde foi “gentilmente“ atendido pelo caixeiro António Custódio das Neves. Além dos modos gentis do empregado, não passaram desapercebidos, à natural perspicácia do policia, os traços finos do rosto do moço e, nomeadamente, as formas bem torneadas do corpo, perfeitamente percetíveis, debaixo das roupas leves que envergava.

Intrigado, o chefe de esquadra, a pretexto de querer saber se o rapaz já tinha feito a tropa, levou-o à esquadra e aí deu inicio a um minucioso interrogatório que deixou seriamente embaraçado o interrogado, acabando este por confessar que era efetivamente mulher, que tinha 20 anos, que o seu nome de batismo era o de Maria Trindade mas que era mais conhecida por a Antónia Custódia das Neves, natural da Granja do Tedo, no conselho de Tabuaço.

A moça foi detida e entregue ao comissário da Policia que, por sua vez, a remeteu para o poder judicial. No dia seguinte o caso da ”mulher-homem“ ocupava o espaço mais nobre dos jornais do Porto. “É o assunto forçado de todas as conversações e não há ninguém nesta cidade que deixe de fazer os comentários mais extravagantes“, escreveu-se no “Jornal do Porto”. Outro jornal, “A Voz do Povo“, levou o caso para a brincadeira e tratou o assunto da “mulher- homem“ ao jeito de gazetilha, que começava assim: “Oh! Salve, Antónia Custódia! / Ó grande celebridade! / És pérola de virtude / Nesta perdida cidade…”

Disseram os jornais da época que Antónia Custódia, enquanto se vestiu de rapaz, trajava jaquetão de ratina (tecido felpudo de lã); calça de casimira; chapéu baixo de feltro; e camisa com peito de folhos, que sempre usou com botões de ouro. No colete ostentava uma corrente de ouro e no bolso tinha o respetivo relógio. Mais, que era bem parecido, esbelto, de maneiras expeditas, gracioso e que até derriçava moças da sua idade atribuindo-se-lhe a seguinte quadra enviada uma pretensa namorada: “Quando fores minha esposa;/serás feliz venturosa./ Terás tudo quanto possuo/ minha bela, minha rosa…”

Soube-se entretanto que a Antónia Custódia das Neves era filha de Maria Coroada, uma mulher que nos idos de cinquenta, do século XIX, criara uma estranha seita religiosa na Granja do Tedo - “o sisma da Granja do Tedo ” - de que ela era a figura principal .

Apresentada no tribunal de S. João Novo, Antónia Custódia das Neves repetiu perante o juiz tudo o que já havia dito na esquadra. Depois de submetida a um exame realizado por médicos, foi mandada em liberdade. À saída do tribunal tinha à sua espera uma enorme multidão que a tratou como uma verdadeira heroína.

Em abril de 1879, com 28 anos de idade, Antónia Custódia das Neves casou , na igreja de Santo Ildefonso, com António Joaquim da Silva Júnior, de 19 anos, filho do taberneiro da rua do Bonjardim onde trabalhara. Consta que foi feliz com o marido. Mas a desgraça bateu – lhe à porta, nove anos depois do casamento.

Na noite de 20 de março de 1888, a Antónia Custódia, já com 37 anos de idade, foi assistir a um espetáculo no então famoso teatro Baquet que se situava na rua de Sá da Bandeira, em frente ao café “A Brasileira” , onde hoje está o hotel “Teatro” assim denominado em memória do Baquet fundado por Antoine Baquet. Antónia Custódia estava na plateia com o marido, quando um violento incêndio irrompeu dos lados do palco. Em poucos segundos as chamas espalharam-se por todo o teatro. O casal morreu carbonizado e com ele mais 120 pessoas. A tragédia do Baquet chocou, não apenas a cidade do Porto, mas o país inteiro. Um poeta satírico daquele tempo evocou a infeliz Antónia Custódia nesta quadra: “Era um rapaz às direitas;/a Maria da Trindade/Todas as moças bem feitas, / Inda a choram com saudade…”

Germano Silva

Germano Silva

Nasci em Penafiel no ano de 1931. Ao tempo que isso vai! Mas vim para o Porto com menos de um ano de idade e foi aqui deitei raízes e me fiz homem. Aos 11 anos comecei a trabalhar como marçano, num retroseiro da rua de Santa Catarina. Depois fui operário, primeiro numa fábrica de fósforos e, depois, noutra, de lanifícios, ambas em Lordelo do Ouro. Tive uma breve passagem pela secretaria do Hospital de Santo António e cheguei ao jornalismo em 1956, como colaborador desportivo, no Jornal de Noticias. Sou jornalista profissional desde 1959. Comecei , no JN, claro, como estagiário e ali passei por todas as fases da profissão: estagiário, repórter informador, repórter, redator, subchefe e chefe de Redação. Numa tão longa carreira colaborei também noutros jornais: Expresso, de que fui correspondente no Porto; Flama, Jornal Novo, O Jornal e, por arrasto, digamos assim, a Visão de que também fui delegado na Invicta. Mas nunca me desvinculei do JN de que me aposentei em 1996. Foi como “ repórter da cidade “ , neste jornal, que me especializei na história da cidade do Porto que, modéstia à parte, hoje domino com relativa facilidade. Daí que os meus temas nestas crónicas andem, invariavelmente, ligados à história da cidade do Porto. E, como era de esperar, julgo eu, sou portista.