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As pombas da cidade

Lucí­lia Monteiro

As pombas do Porto são de um cinzento mesclado como se tivessem sido criadas, especialmente, para condizer com o granito com que foi construída a maior parte dos grandes edifícios da cidade

O Porto é uma cidade de pombas. Há-as, um pouco por todos os lados – na avenida dos Aliados; nas imediações do Carmo; na praça da Batalha; na Cordoaria; na praça do Infante; na praça de Guilherme Gomes Fernandes. São diferentes das pombas de qualquer outra cidade europeia. Não são pretas, como as da praça de S. Marcos, em Veneza; nem são brancas, como as que povoam o parque de Maria Luisa, em Sevilha. As pombas do Porto são de um cinzento mesclado como se tivessem sido criadas, especialmente, para condizer com o granito com que foi construída a maior parte dos grandes edifícios da cidade.

São pombas vadias, mas com poisos fixos e hábitos inalteráveis. Uma pomba que ande, habitualmente, na avenida dos Aliados, se precisar de beber, não sobe à Cordoaria, vai matar a sede à bica da fonte que fica junto da estátua da menina nua, à entrada da mesma avenida; e outra que ande nas imediações do Carmo, não procura poiso na Batalha ou nem se junta às da praça de Guilherme Gomes Fernandes. Era aqui que o cronista queria chegar.

Esta espaçosa praça foi, outrora, o paraíso das pombas, quando por ali funcionava a célebre Fonte de Santa Teresa (do nome antigo do largo) e abundavam, nas imediações, os estabelecimentos que vendiam farinha, milho e outros cereais que os lojistas expunham, em sacos abertos, à porta das lojas, onde as pombas, sem cerimónia e ante a pródiga indiferença do lojista, iam encher o papo.

As pombas da praça de Guilherme Gomes Fernandes esvoaçavam entre a fonte local e as entradas dos estabelecimentos especializados, como se lhes tivesse sido pedido o encargo de substituírem os antigos aguadeiros e as trigueirinhas padeiras de Valongo, animando aquele espaço como no tempo em que ali se fazia a Feira do Pão.

Mas o mais devotado amigo das pombas da praça de Guilherme Gomes Fernandes, ainda do tempo em que por lá se fazia a Feira do Pão, era o senhor Joaquim Ribeiro da Silva, dono de uma célebre padaria que ainda lá funciona com o seu nome: a Padaria Ribeiro.

Li numa crónica daquele tempo que, logo pela manhã, mal o senhor Ribeiro aparecia à janela da sua casa, as pombas, mal o avistavam, saiam em bandos dos beirais dos telhados e corriam para debaixo da janela para comer o milho que às mãos cheias o senhor Ribeiro lançava sobre elas. Pombas havia que subiam ao parapeito da janela e outras afoitavam-se mesmo a pousar nos braços possantes do senhor Ribeiro e a ir comer o milho à mão dele.

A fisionomia da praça alterou-se. Já por lá não andam os farinheiros nem o senhor Ribeiro aparece à janela. Mas a padaria lá continua, agora com uma ampla esplanada. E é nesta, por entre as mesas e as pernas das cadeiras, que as pombas dos nossos dias procuram, não o milho do senhor Ribeiro, mas as migalhas que caiem dos bolos de arroz ou dos biscoitos com que os turistas acompanham os seus suculentos lunches.