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O rapto de Zahara

Lucília Monteiro

É isso, o topónimo Miragaia, no Porto, tem origem numa lenda que se conta em meia dúzia de palavras, se assim se pode dizer, e que vem do tempo da reconquista

Quando calha de atravessar o típico bairro de Miragaia, não raras vezes sou abordado por moradores locais que me perguntam de onde vem o nome daquele sítio. E conto-lhes, então, a lenda que o portuense Almeida Garrett imortalizou quando a publicou, pela primeira vez, no “Jornal das Belas Artes”, de Lisboa.

É isso, o topónimo Miragaia tem origem numa lenda que se conta em meia dúzia de palavras, se assim se pode dizer, e que vem do tempo da reconquista, quando mouros e cristão viviam em contenda permanente.

Aconteceu tudo pelo ano de 848. Reinava na região em que hoje se insere a cidade do Porto, em Portucale, o rei cristão Ramiro II. Em Cale (a atual Vila Nova de Gaia) mandava o mouro Alboazar.

O nome do rei mouro aparece grafado de várias maneiras. Usamos esta por ser a mais utilizada pelos historiadores.

Numa certa ocasião, o rei Ramiro disfarçou-se de peregrino e fez constar que ia de romagem ao túmulo do apóstolo, em S. Tiago de Compostela. Com este propósito logrou entrar na corte do rei mouro e aí conhecer uma irmã dele, de nome Zahara, mulher sensual e de rara beleza que Ramiro raptou levando-a para a sua corte.

A vingança de Alboazar não tardou. Usando também de um disfarce, conseguiu entrar nos domínios do rei cristão e, com alguma audácia e a ajuda de espiões, chegou aos aposentos da mulher de Ramiro a rainha Gaia que seduziu e levou com ele para o seu castelo que ficava do outro lado rio Douro, fronteiro ao Porto, num local onde ainda hoje existe a rua do Castelo.

Ao saber que o mouro lhe raptara a mulher Ramiro zangou-se a valer e mandou reunir as tropas à frente das quais correu em perseguição do rei mouro e da mulher que este levava na garupa da sua montada.

Diz a lenda que quando o rei cristão chegou à margem direita do rio Douro já os mouros o atravessavam em barcos. Num deles seguia Alboazar e a seu lado Gaia, a mulher do rei cristão. Vendo-os, um dos homens que acompanhava Ramiro gritou-lhe: “ mira, Gaia”, querendo com isso dizer “olha, Gaia”. E, diz a lenda, com mais ou menos palavras, assim nasceu o nome de um dos bairros mais típicos do Porto.