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Monumento nacional salvo do camartelo

Histórias portuenses

Germano Silva

Lucí­lia Monteiro

Igreja de São Francisco, hoje uma das mais belas do Porto, com um riquíssimo revestimento interior de talha dourada que lhe conferiu o direito a ser considerada a “igreja de ouro”

Os frades mendicantes da ordem de S. Francisco (franciscanos) chegaram ao Porto por 1233. Mas tiveram muitas dificuldades para construir, na cidade, um convento para a comunidade. Trouxeram com eles uma autorização papal, passada, naquele mesmo ano, pelo Papa Gregório IX, mas D. Pedro Salvadores, bispo da diocese, proibiu os pobres frades de construírem no Porto a sua casa conventual. Foi mais longe, o austero prelado: excomungou o cidadão que oferecera o terreno para a construção do convento; mandou destruir a obra que já estava feita; e considerou os frades “hereges e gente prejudicial ao mundo…”

Com o rodar do tempo, porém, e a mediação do arcebispo de Braga, tudo se viria a consertar, entre frades e bispo, e o mosteiro lá se foi erguendo. A igreja só começaria a ser construída bastante mais tarde, aí por 1383. Do mosteiro nada resta. Um incêndio, durante o Cerco do Porto (1832/1833), reduziu a cinzas a antiga casa dos franciscanos.

Com a extinção das ordens religiosas, em 1834, a rainha D. Maria II ofereceu o que restava do convento à classe comercial da cidade que sobre as suas ruínas construiu a sede da prestigiada Associação Comercial do Porto, o Palácio da Bolsa.

Ficou a igreja. Hoje uma das mais belas do Porto, com um riquíssimo revestimento interior de talha dourada que lhe conferiu o direito a ser considerada a “igreja de ouro” do Porto. Pois, mas com a extinção da ordem franciscana, e a fuga dos frades, a igreja foi votada ao mais completo abandono. Chegou a servir de armazém da alfândega. A única igreja gótica do Porto. Mais: a riquíssima capela-mor deste templo, onde repousam as grandes figuras do Porto renascentista, como os Brandões do cancioneiro, e os Leites Pereiras, da Casa de Ramalde, esteve para ser demolida. É verdade.

Quando, aí por 1837, se decidiu prolongar uma rua já existente à entrada do largo de S. Domingos, até à beira rio, o projeto prévia a destruição da capela-mor da igreja que anos mais tarde viria a ser classificada como monumento nacional. Valeu, na circunstância, a oportuna intervenção da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco que oficiou à rainha pedindo – lhe que impedisse um crime de lesa património. A monarca interveio no caso e confiou a guarda do templo àquela ordem terceira. A igreja de S. Francisco é, na atualidade, um dos monumentos do Porto mais visitados… por estrangeiros.

Germano Silva

Germano Silva

Nasci em Penafiel no ano de 1931. Ao tempo que isso vai! Mas vim para o Porto com menos de um ano de idade e foi aqui deitei raízes e me fiz homem. Aos 11 anos comecei a trabalhar como marçano, num retroseiro da rua de Santa Catarina. Depois fui operário, primeiro numa fábrica de fósforos e, depois, noutra, de lanifícios, ambas em Lordelo do Ouro. Tive uma breve passagem pela secretaria do Hospital de Santo António e cheguei ao jornalismo em 1956, como colaborador desportivo, no Jornal de Noticias. Sou jornalista profissional desde 1959. Comecei , no JN, claro, como estagiário e ali passei por todas as fases da profissão: estagiário, repórter informador, repórter, redator, subchefe e chefe de Redação. Numa tão longa carreira colaborei também noutros jornais: Expresso, de que fui correspondente no Porto; Flama, Jornal Novo, O Jornal e, por arrasto, digamos assim, a Visão de que também fui delegado na Invicta. Mas nunca me desvinculei do JN de que me aposentei em 1996. Foi como “ repórter da cidade “ , neste jornal, que me especializei na história da cidade do Porto que, modéstia à parte, hoje domino com relativa facilidade. Daí que os meus temas nestas crónicas andem, invariavelmente, ligados à história da cidade do Porto. E, como era de esperar, julgo eu, sou portista.