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Rezar o terço de casa para casa

Histórias portuenses

Germano Silva

Lucília Monteiro

Mais uma "História Portuense" contada por Germano Silva, desta vez sobre o "piedoso costume" que deu origem à construção de uma das mais belas igrejas do Porto

Houve um tempo em que a cidade do Porto atravessou um longo período de profunda religiosidade. Procissões e vias-sacras a desfilarem nas ruas do velho burgo, era uma prática habitual, porque eram muito da devoção dos portuenses, não apenas das classes trabalhadoras, mas também dos lojistas e até mesmo da burguesia endinheirada. Havia, no Porto antigo, a rua do calcário (o novo) e o sítio do Calvário Velho, assim denominados por ostentarem arvoradas as cruzes de duas das mais famosas vias-sacras que se realizavam no Porto ainda nos finais do século XIX. A recitação do terço foi outra das práticas mais comuns dos portuenses. À noite, em certas ruas do burgo, rezava-se o terço de casa para casa. Esse piedoso costume deu origem à construção de uma das mais belas igrejas do Porto, a Igreja do Terço, e à instituição da confraria de Nossa Senhora do Terço e Caridade. Tudo começou com a prática da recitação do terço. Nas imediações da atual rua de Cimo de Vila, alguns devotos reuniam-se à noite para rezar o terço em comum, junto a um oratório em que se venerava a imagem da Virgem e que ficava, sensivelmente, onde está agora a igreja do Terço. Aos domingos e dias santificados, os devotos da recitação do terço cumpriam o seu ritual mas em procissão percorrendo várias artérias das imediações, ao mesmo tempo que faziam um peditório público. As recitações do terço e as procissões eram sempre acompanhadas pelo padre Geraldo Pereira, grande devoto da Virgem e do terço. Com as esmolas angariadas durante as procissões, resolveu este sacerdote substituir o pequeno oratório onde se venerava a imagem de Nossa Senhora e, no seu lugar, construir uma igreja. Assim nasceu, em 1756, a Igreja do Terço. E logo a seguir (1762) instituiu-se, na mesma igreja, a Irmandade de Nossa Senhora do Terço e Caridade. Ainda no ativo.

Germano Silva

Germano Silva

Nasci em Penafiel no ano de 1931. Ao tempo que isso vai! Mas vim para o Porto com menos de um ano de idade e foi aqui deitei raízes e me fiz homem. Aos 11 anos comecei a trabalhar como marçano, num retroseiro da rua de Santa Catarina. Depois fui operário, primeiro numa fábrica de fósforos e, depois, noutra, de lanifícios, ambas em Lordelo do Ouro. Tive uma breve passagem pela secretaria do Hospital de Santo António e cheguei ao jornalismo em 1956, como colaborador desportivo, no Jornal de Noticias. Sou jornalista profissional desde 1959. Comecei , no JN, claro, como estagiário e ali passei por todas as fases da profissão: estagiário, repórter informador, repórter, redator, subchefe e chefe de Redação. Numa tão longa carreira colaborei também noutros jornais: Expresso, de que fui correspondente no Porto; Flama, Jornal Novo, O Jornal e, por arrasto, digamos assim, a Visão de que também fui delegado na Invicta. Mas nunca me desvinculei do JN de que me aposentei em 1996. Foi como “ repórter da cidade “ , neste jornal, que me especializei na história da cidade do Porto que, modéstia à parte, hoje domino com relativa facilidade. Daí que os meus temas nestas crónicas andem, invariavelmente, ligados à história da cidade do Porto. E, como era de esperar, julgo eu, sou portista.