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Desaire do Santo Oficio no Porto

Histórias portuenses

Germano Silva

D.R.

Mais uma imperdível História Portuense, de Germano Silva, desta vez sobre um casamento às escondidas num barco no rio Douro. Mas não um casamento qualquer...

No seu livro “Noites de Insónia”, Camilo Castelo Branco conta, com alguma efabulação romanesca, o drama dos amores de Isabel Fiúza com Thomaz Mazom (e não Mosheim, como escreve Camilo), que ocorreram no já longínquo século XVIII.

Ambos eram ingleses, mas ele era da religião protestante e ela do culto católico romano. Contrariando a vontade das respetivas famílias os dois namorados resolveram casar, secretamente, e fizeram-no a bordo de um barco inglês que estava ancorado no rio Douro.

A cerimónia decorreu segundo ritual da religião do noivo. O Santo Oficio soube do enlace e das circunstâncias em que havia decorrido e prendeu a noiva. Protestou o cônsul inglês acreditado no Porto, mas de nada valeram os seus argumentos. Chegou a apelar para os inquisidores de Coimbra mas estes mantiveram a decisão dos do Porto.

Havia uma só maneira de resolver o assunto: raptar a prisioneira do cárcere eclesiástico onde estava detida, então a funcionar num prédio, ainda existente, da rua de S. Sebastião. E assim aconteceu.

Camilo termina o seu escrito dizendo que este episódio foi um verdadeiro desaire para o todo poderoso Santo Oficio que ousava desobedecer a reis e ao próprio papa. Mas Camilo enganou-se. O cônsul inglês acabou vencido e o Santo Oficio é que foi o vencedor.

Com efeito, no dia 21 de Outubro de 1704, na igreja paroquial de S. Nicolau, junto à Ribeira, e segundo o ritual da igreja católica romana, Tomaz Mason “inglês convertido”, recebeu, como esposa Isabel Fiuza, ambos naturais de Londres mas residentes nesta cidade do Porto, ele na rua do Outeiro, Massarelos; e ela na rua Nova, a atual rua do Infante D. Henrique. O padre católico Manuel Mendes Vieira que lavrou o termo deste casamento escreveu o seguinte: “ antes de se receberem os noivos apresentaram uma sentença do reverendo vigário geral deste bispado (do Porto) pelo qual se julgou ser nulo e de nenhuma validade o matrimónio que os contraentes tentaram celebrar no rio Douro em presença de um ministro herege o que fizeram sendo o contraente ainda protestante …” Este foi o verdadeiro fecho da história.

Germano Silva

Germano Silva

Nasci em Penafiel no ano de 1931. Ao tempo que isso vai! Mas vim para o Porto com menos de um ano de idade e foi aqui deitei raízes e me fiz homem. Aos 11 anos comecei a trabalhar como marçano, num retroseiro da rua de Santa Catarina. Depois fui operário, primeiro numa fábrica de fósforos e, depois, noutra, de lanifícios, ambas em Lordelo do Ouro. Tive uma breve passagem pela secretaria do Hospital de Santo António e cheguei ao jornalismo em 1956, como colaborador desportivo, no Jornal de Noticias. Sou jornalista profissional desde 1959. Comecei , no JN, claro, como estagiário e ali passei por todas as fases da profissão: estagiário, repórter informador, repórter, redator, subchefe e chefe de Redação. Numa tão longa carreira colaborei também noutros jornais: Expresso, de que fui correspondente no Porto; Flama, Jornal Novo, O Jornal e, por arrasto, digamos assim, a Visão de que também fui delegado na Invicta. Mas nunca me desvinculei do JN de que me aposentei em 1996. Foi como “ repórter da cidade “ , neste jornal, que me especializei na história da cidade do Porto que, modéstia à parte, hoje domino com relativa facilidade. Daí que os meus temas nestas crónicas andem, invariavelmente, ligados à história da cidade do Porto. E, como era de esperar, julgo eu, sou portista.