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Igreja manuelina transformada em paiol de pólvora

Histórias portuenses

Germano Silva

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Se Camilo Castelo Branco não tivesse situado parte substancial do enredo do seu romance “Amor de Perdição” neste convento, ninguém saberia, hoje, onde ele ficava

Em 1834, na sequência da vitória do liberalismo na guerra civil de 1832/1833, que opôs o exército constitucional de D. Pedro IV às tropas absolutistas de D. Miguel, as autoridades liberais extinguiram as ordens religiosas que, na generalidade, se haviam mostrado afetas aos miguelistas.

Entre os muitos mosteiros encerrados contou-se o da Madre de Deus de Monchique, no Porto, de religiosas da Ordem de S. Francisco. Era antiquíssimo. Ao contrário dos restantes conventos da cidade, que haviam surgido pela iniciativa régia ou do bispo local, (e não sei de terra portuguesa onde tivesse havido tantos mosteiros por metro quadrado como no Porto) o mosteiro de Monchique foi obra da iniciativa privada. Fundou-o, em 1533, Pedro da Cunha Coutinho e sua mulher D. Beatriz de Vilhena em obediência a um voto. O casal era muito rico mas não tinha descendência e foi com a intenção de obterem a graça de um herdeiro que mandaram construir o mosteiro a montante do bairro de Miragaia onde, aliás, tinham residência.

O convento de Monchique foi um dos mais importantes do Porto. No século XVII tinha mais de cem religiosas e nos finais do século seguinte ainda lá viviam setenta freiras e muitas seculares (senhoras das mais ilustres famílias) além de u elevado número de serventes. O que de mais recomendável havia no convento era a igreja. Vilhena Barbosa, ilustre crítico de arte, que a conheceu, deixou dela esta descrição: “… as suas capelas ostentavam todas as galas da escultura em madeira dourada, com que a Renascença caprichou em adornar os templos. Neste género de ornamentação era uma das mais belas igrejas do Porto … “ Sabe-se hoje que a igreja do mosteiro de Monchique não ficava a dever nada às suas congéneres de Santa Clara e de S. Francisco - hoje em dia duas dos maiores atracões turísticas do Porto.

Pois esta preciosidade do manuelino logo a seguir ao encerramento do convento foi transformada, sabem em quê? Paiol da pólvora. Um jornal da época, o “Braz Tisana”, na sua habitual coluna do “Pasmatório dos Loios”, em 16 de Julho de 1853, dizia isto: “Pólvora em Monchique – o depósito de pólvora no edifício da igreja do mosteiro de Monchique tem chamado a atenção de alguns jornais e dos vizinhos do dito convento pelo prejuízo que lhes pode resultar de qualquer descuido…”

Passou mais de século e meio e nada aconteceu de anormal. Aliás, se Camilo Castelo Branco não tivesse situado parte substancial do enredo do seu romance “Amor de Perdição” neste convento, ninguém saberia, hoje, onde ele ficava. Entretanto o convento no seu todo foi posto em leilão e vendido a dois particulares. A parte onde se situava a igreja anda agora em obras. O mais provável é que se construa ali um hotel.

Que bom seria que a história do sítio fosse preservada! E isso é possível porque há imagens e há documentos como aquele que relata a queixa que uma abadessa fez na polícia contra um figurão que ao som de uma viola cantava madrigais às monjas debaixo das janelas das suas celas. O homem foi ouvido na polícia. E sabem o que ele disse? Que a abadessa tinha era ciúmes porque ele já cantara também para ela e até já tinha estado na sua cela.

Germano Silva

Germano Silva

Nasci em Penafiel no ano de 1931. Ao tempo que isso vai! Mas vim para o Porto com menos de um ano de idade e foi aqui deitei raízes e me fiz homem. Aos 11 anos comecei a trabalhar como marçano, num retroseiro da rua de Santa Catarina. Depois fui operário, primeiro numa fábrica de fósforos e, depois, noutra, de lanifícios, ambas em Lordelo do Ouro. Tive uma breve passagem pela secretaria do Hospital de Santo António e cheguei ao jornalismo em 1956, como colaborador desportivo, no Jornal de Noticias. Sou jornalista profissional desde 1959. Comecei , no JN, claro, como estagiário e ali passei por todas as fases da profissão: estagiário, repórter informador, repórter, redator, subchefe e chefe de Redação. Numa tão longa carreira colaborei também noutros jornais: Expresso, de que fui correspondente no Porto; Flama, Jornal Novo, O Jornal e, por arrasto, digamos assim, a Visão de que também fui delegado na Invicta. Mas nunca me desvinculei do JN de que me aposentei em 1996. Foi como “ repórter da cidade “ , neste jornal, que me especializei na história da cidade do Porto que, modéstia à parte, hoje domino com relativa facilidade. Daí que os meus temas nestas crónicas andem, invariavelmente, ligados à história da cidade do Porto. E, como era de esperar, julgo eu, sou portista.