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Os abadessados

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No sítio onde está agora a centenária Estação de São Bento, no Porto, existiu, em tempos muito antigos, o faval do bispo

Agora que o Porto está a comemorar os cem anos da estação ferroviária de S. Bento, parece-nos oportuno lembrar que no sítio onde está a gare existiu, em tempos muito antigos, o faval do bispo - que foi onde o rei D. Manuel I mandou construir, em 1518, um mosteiro para monjas beneditinas, o mosteiro de S. Bento da Ave Maria, demolido nos finais do século XIX para a construção da estação que lhe tomou o nome.

Este convento foi uma das mais importantes casas conventuais femininas do Porto. Mas o que lhe deu maior celebridade foram os abadessados, ou outeiros, uma espécie de torneios poéticos ou, se preferirem, de jogos florais, que duravam dias, isto é várias noites, porque começavam sempre depois do toque melancólico das trindades e iam pela noite dentro. Realizavam-se, invariavelmente, por alturas da eleição de uma nova abadessa e contavam, sempre, com a participação dos mais famosos poetas desse tempo.

O cenário era o amplo pátio do convento. As freiras, detrás das grades das suas celas, atiravam um mote que o poeta glosava, entre sorrisos e cálices de vinho do Porto. Sim, porque entre o atirar do mote e a construção do poema andavam as lépidas açafatas do mosteiro a oferecer aos vates os deliciosos doces conventuais de par com cálices do generoso Porto. Um cronista que escreveu acerca de um desses outeiros disse que os poetas que nela haviam participado “levaram para esse outeiro a sua alegria mas também o seu apetite e que era com o olho fito na bandeja dos doces e nas garrafas do generoso vinho do Alto Douro que glosavam os motes e teciam a linda dos seus graciosos madrigais.”

O último abadessado no mosteiro de S. Bento da Ave Maria realizou-se em 1871 e celebrou a eleição da nova abadessa, a madre Ermelinda Doroteia de Freitas Faria e Gouveia. Dizem as crónicas do tempo que “a festa, que durou três noites, foi ruidosa”. E o poeta que nesse outeiro mais impressionou as freiras e seculares de S. Bento, foi um jovem escolar, chamado Guerra Junqueiro. Ainda não tinha vinte anos mas já era considerado dos maiores poetas do seu tempo.