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Salvador Sobral e a Eurovisão - as pessoas gostam é de...

Higiafone

Pedro Dias de Almeida

Ainda Salvador Sobral e a maneira como mostrou que a Eurovisão, afinal, também é um festival de canções

Confesso que muitas vezes passo mais tempo do que devia a ler comentários (e comentários a comentários) no Facebook. É um exercício cansativo e, quase sempre, deprimente e irritante. Porque o faço? Nem sei bem, fica para outra crónica. Mas, de algum modo, o bolo de comentários às notícias do momento permitem auscultar uma boa parte da vox populi que se manifesta sem medo do confronto direto, com autores que, quase sempre, acreditam que estão a dizer o que “tem que ser dito”, a revelar grandes injustiças ou a “chamar os bois pelos nomes”. E lembro-me bem que durante o Festival da Canção RTP deste ano, os comentários na página oficial não eram propriamente muito numerosos mas começaram a ter um padrão com coisas como “agora é que batemos no fundo!”, “a canção até não é má, mas levar isto a um festival??”, “até vou ter vergonha de o ver representar Portugal, lá vamos ficar em último outra vez!”, “isto não é canção para um festival!”, “Com isto claro que nem passamos da semifinal, ai Portugal…”. Cito livremente, mas lembro-me do que li (e os comentários ainda devem estar lá, fossilizados). Uma das principais críticas e, vá lá…, reflexões tinha a ver com a canção não ser, de todo, "festivaleira". Não vou sequer tentar reproduzir todos os comentários que tentavam humilhar e descrever o estilo de Salvador Sobral de um modo absolutamente desrespeitoso, rude e mesmo ofensivo – mas não eram assim tão raros.

Nem me admiraria se muitos dos que escreveram esses comentários estivessem hoje, vítimas talvez inconscientes da ditadura do imediatismo, a celebrar a grande vitória de Portugal na Eurovisão. E foi mesmo uma grande vitória de Salvador e Luísa Sobral! E do novo formato de Festival da Canção que a RTP inaugurou este ano, depois de um pousio em 2016. Henrique Amaro e Nuno Galopim escolheram os músicos a desafiar para criarem uma canção que nos representasse no palco da Eurovisão. Percebemos agora que, logo na estreia do novo sistema, não podia ter corrido melhor. Confesso, sem grande culpa, que se me perguntarem quem representou Portugal na Eurovisão nos últimos dez anos só me consigo lembrar de um nome: A Luta É Alegria, dos Homens da Luta. Dança Comigo (Vem Ser Feliz)? Todas as Ruas do Amor? Vida Minha? Quero Ser Tua? Zero, não me lembro de nada, lamento… E pertenço à geração que há mais de 30 anos vibrava intensamente com cada Festival da Canção e Eurovisão, e discutia canções e avaliações dos júris na escola, com colegas, contínuos e professores, no dia seguinte. Basicamente, foi uma excelente maneira de aprender a perder. Vencer na Eurovisão era uma espécie de impossibilidade histórica.

Em 2017 ganhámos. Porquê? Porque, felizmente, ainda é impossível começar frases com “as pessoas querem é…”, “as pessoas gostam é de…” e acertar sempre. As pessoas, afinal, reconhecem a verdade de uma bela canção. Acredito que Amar Pelos Dois foi conquistando ouvintes pela Europa fora com um único argumento: a música (composição, interpretação e letra para quem a conseguia perceber). Na final da Eurovisão destoou, demarcou-se e desmentiu todos os sábios catastrofistas das caixas de comentários há uns meses… A diferença foi mesmo a sua força.

Salvador Sobral, logo depois da vitória, disse que a “música não é fogo de artifício”. Foi interpretado por alguns como um sinal de arrogância de quem ganhou e desmerece toda a concorrência. É fácil interpretá-lo assim mas parece-me que era, antes de mais, o statement de um músico que aproveitava aquele enorme palco mediático para valorizar a música, a sua visão da música, e não necessariamente uma crítica direta a todos os outros concorrentes (se assim fosse não fazia sentido encontrar gravações de Luísa e Salvador a interpretarem, descontraidamente, em Kiev, as canções finalistas da Finlândia ou da Bélgica…). A sua música valorizou a Eurovisão, que é, afinal (surpresa?), um festival de canções mesmo que a associemos sempre a um estilo muito específico (festivaleiro, sim, meio piroso, festivo, datado…). Será que as pessoas, afinal, querem outra coisa? Ah, as pessoas...

O músico Josh Tillman (hoje muito mais conhecido como Father John Misty) tem repetido nas recentes entrevistas uma fórmula. Diz ele que o entretenimento serve para esquecer, a arte para lembrar (“Entretenimento é esqueceres a tua vida por umas horas, arte é lembrares-te” disse, por exemplo, ao Expresso em entrevista recente a Lia Pereira). Simplista, talvez, como todas as fórmulas, mas um achado que me faz muito sentido por estes dias rápidos.

Certo, certo é que nos vamos lembrar por muito tempo de Amar Pelos Dois na voz de Salvador Sobral, interpretando sempre a canção de maneira diferente (talvez não seja tão efémero como querias, Salvador...). E muitos de nós vão saber responder rapidamente à pergunta “onde estavas a 13 de maio de 2017?”.

Pedro Dias de Almeida

Pedro Dias de Almeida

Jornalista

Há uma frase que resume tudo: "As coisas são como são". A mim, muitas vezes, basta-me. O jornalismo existe para revelar, mostrar, desenvolver e explicar essas coisas (que são como são). O jornalismo existe porque às vezes não sabemos bem, ou não sabemos de todo. Mas não tenham dúvidas: as coisas são (sempre) como são. Pedro Dias de Almeida nasceu na Guarda nos idos de março de 1972, estudou comunicação social na FCSH da Universidade Nova de Lisboa e trabalha na VISÃO desde março de 1994. Já escreveu nesta revista milhares e milhares de caracteres em várias secções (sobretudo na cultura). Tem óculos. E é o que é.