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Sim, não, talvez

Flor de Sal

Margarida Rebelo Pinto

Sigfrid López/ Getty Images

O Reforço Intermitente, praticado de forma mais ou menos consciente ou inconsciente, pode dar cabo de uma pessoa, porque a imprevisibilidade gera ansiedade que gera insegurança que gera medo que gera mais insegurança que gera mais ansiedade e por aí fora. Para quem vive numa situação de Reforço Intermitente, o dia a dia pode transformar-se numa montanha russa na qual nunca sabemos se vamos subir a pique, descer vertiginosamente, fazer três loops seguidos, mergulhar num lago gelado ou passar no meio de seis arcos em chamas. Margarida Rebelo Pinto, no Flor de Sal desta semana

Imagine uma caixa transparente com um pequeno buraco. Dentro da caixa está um pombo. Fora da caixa está o mundo. O pombo olha para o mundo, mas não pode sair da caixa. No entanto, não é isso que o incomoda. Através da caixa, o pombo pode ver outra, que está ligada à sua por um tubo. O que está dentro da outra caixa é o que alimenta o pombo. Se receber comida todos os dias à mesma hora, o pombo nem pensa nisso. Se o alimento deixar de chegar pelo tubo, o pombo desiste de esperar. Então o que acontece se o pombo nunca souber quando vai ter comida porque não existe um padrão, uma regra, nada que lhe indique quando de facto isso vai acontecer?

A isto chama-se Reforço Intermitente. Pombos, ratos e outros animais sujeitos a esta experiência enlouqueceram de ansiedade. Alguns morreram de exaustão, enquanto corriam em busca de uma recompensa sem hora marcada. O Reforço Intermitente, praticado de forma mais ou menos consciente ou inconsciente, pode dar cabo de uma pessoa, porque a imprevisibilidade gera ansiedade que gera insegurança que gera medo que gera mais insegurança que gera mais ansiedade e por aí fora. Para quem vive numa situação de Reforço Intermitente, o dia a dia pode transformar-se numa montanha russa na qual nunca sabemos se vamos subir a pique, descer vertiginosamente, fazer três loops seguidos, mergulhar num lago gelado ou passar no meio de seis arcos em chamas. O Reforço Intermitente é aquilo que faz com que o ser humano se vicie no jogo apostando dinheiro que não tem, que nos leva a abrir o Facebook ou o Instagram ver quantos likes temos, que nos deixa no limbo à espera de uma mensagem, de uma resposta, de um sinal por parte de alguém que comunica de forma errática e imprevisível, alguém que liga e desliga sem pré-aviso, para quem às segundas, quartas e sextas somos o centro de todos os seus sentidos, e às terças, quintas e sábados age como se não existíssemos.

O ser humano é insatisfeito por natureza. Queremos aquilo que não temos. Aquilo que nunca tivemos, ou que sabemos que não vamos ter, é rapidamente esquecido. Aquilo que já temos, tomamos por garantido. É precisamente aquilo que nunca sabemos se temos ou não que faz disparar a adrenalina e o cortisol. Se pensarmos que cada ser humano tem em média de dez triliões de células para gerir, que as células são organismos dotados de inteligência e de memória, é fácil perceber como uma situação de Reforço Intermitente pode ensombrar a existência e retirar-nos energia, otimismo e alegria.

O Reforço Intermitente pode colocar o ser humano mais sensato e racional numa armadilha emocional da qual se sente refém, e não é caso para menos. É como se o coração vivesse numa prisão de insegurança máxima, ninguém consegue adivinhar quando chega o momento de dar a volta à fechadura, abrir as portas da prisão interior e alcançar de novo a liberdade. E se é verdade que não escolhemos nem com quem se cruza no nosso caminho, nem por quem nos apaixonamos, também é verdade que somos dotados de liberdade de escolha. Podemos decidir o que queremos em nome do nosso bem-estar e da nossa paz interior.

Um dos fatores que leva um homem a lidar com mais facilidade com este tipo de relações do que a mulher tem a ver com a sua natureza: o homem é sexualmente descontínuo, enquanto a mulher é continuamente erótica. Um homem ou está com a cabeça cheia de sexo, ou nem sequer pensa nisso. E só pensa continuamente em sexo se estiver sob o estado da paixão. Ora a paixão passa, dilui-se, esmorece, vai sendo apagada pela realidade, pelo tempo, pela distância. Ninguém tem saúde nem tempo para se manter apaixonado durante muito tempo, a vida não deixa. É como passar muito tempo na rebentação, é preciso regressar a terra antes de morrer na praia.

A grande questão não está em tentar perceber o que faz com que o outro, outrora presente e dedicado, se torna omisso, errático e imprevisível, mas se queremos ou não aceitar que quem já nos quis dar o mundo, nos alimenta com migalhas sem data nem hora, sem segurança, sem estabilidade, sem a possibilidade de construir nada em comum. A grande questão não reside no outro e no seu comportamento, mas em nós e na capacidade de fazer escolhas. O pleno acontece poucas vezes na vida, portanto cada um pode e deve escolher se prefere ficar quieto, avançar sozinho, atravessar o deserto com camelos e correr em direção a uma miragem, descansar no oásis ou deixar que o tempo e a vida resolvam o que a vontade e o coração não conseguem.

Tudo se resolve e geralmente quando um problema parece não ter solução, a última é quase sempre a melhor. Ou quase sempre. Estar quieto também é uma ação, muitas vezes, a mais sábia.

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Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto é uma das mais famosas escritoras nacionais, com 26 livros publicados, 16 dos quais romances, e com mais de um milhão de exemplares vendidos numa carreira de 30 anos. Margarida decidiu que ia ser cronista quando tinha apenas 10 anos e leu As Farpas e os textos de Manuel Portugal no Tempo. Publicou a sua primeira crónica no primeiro número d’ O Independente, como cronista-mistério: chamava-se Miss X 22, a sua idade à época. Gosta de comida japonesa, de ir ao ginásio cinco vezes por semana e é viciada em sms. Escreve na visão.pt sobre sexo, amor e bom senso, com uma pitada de flor de sal. Porque a vida sem sal não tem graça nenhuma…