Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Flor de Sal

Margarida Rebelo Pinto

Getty Images

Difícil? Difícil é ser malabarista e conseguir pôr a girar dez ou mais pratinhos ao mesmo tempo sem nenhum cair. Difícil é já não sentir amor por alguém e continuar a dormir na mesma cama: Margarida Rebelo Pinto reflete sobre os "bons maridos" na crónica desta semana

Nem todos os homens nascem para maridos, e nem todos adquirem ao longo da vida competências para desempenhar tal papel atingindo os mínimos olímpicos, contudo, aqueles que têm essa vocação são em geral tipos bastante felizes, quase sempre bem-dispostos e com aquela bonomia característica de quem acredita que vai sempre correr tudo bem.

Não conheço assim tantos, talvez com um pouco de sorte cheguem aos dedos de uma mão, incluindo homens da minha família, o que reduz drasticamente a amostra no que respeita ao mundo exterior. Tant pis. A vida é mesmo assim, quanto mais protegido é o ambiente familiar, mais hostil se pode revelar a realidade, razão pela qual, se pudesse encarnar numa super-heroína da Marvel, inventava a minha própria, com o nome de Miss Kevlar, um cruzamento entre a Lois Lane e a Mulher Elástico com uma pitada de Super-Mulher para os dias mais complicados no que respeita à Frente Amorosa. A Frente Amorosa – cenário também imaginado pela minha imaginação galopante -, inclui praias simpáticas, rapaziada bem-parecida, conversas interessantes, saídas com as amigas, passeios à beira-mar e outros lugares onde a a vida acontece, e às vezes o amor também.

Voltando então ao tema inicial, de que é feito um bom marido? Os americanos têm uma expressão magnífica para esta realidade: husband material. Bela designação. Na geração Disney – da qual para o bem e para o mal faço parte – foi-nos incutido que todas as meninas desejavam casar. Não tínhamos grandes hipóteses de pensar de forma diferente: no meu caso, que fui independente meia dúzia de anos antes de dar o nó, a questão nem se punha se ia casar ou não, apenas quando. E foi assim que quase todas casámos, quase sempre com a crença de que o divórcio não se iria atravessar nas nossa vidas.

Um bom marido não é nada fácil de encontrar. É mais ou menos como encontrar uma agulha num palheiro, mas se a cabeça da agulha tiver um diamante, a busca será mais fácil de levar a cabo. Um bom marido tem que, acima de tudo, querer ser um bom marido. E não basta a convicção, também é necessária uma prática que concretize as boas intenções. Convém não ter medo do compromisso, porque senão nem vale a pena namorar. Um homem com vocação para marido acredita que o casamento é uma instituição votada ao sucesso se nela se reunirem o máximo do prazer com o máximo do conforto. Os maridos felizes que conheço acham literalmente que a mulher é uma pessoa espetacular, elogiando-a com frequência e militância. Um marido com jeito para marido dá-se bem com a família da mulher, raramente se atrasa, tem os seu próprios hobbies, não assume que a mulher é um substituto da mãe, faz a sua mulher sentir-se bonita e desejada, é um bom pai, confia na mulher e está lá para o que der e vier.

Podia continuar com a encantada enumeração, mas o objetivo desta crónica não é tornar a vida ainda mais difícil aos homens de Portugal, fazendo com que as mulheres exijam mais e mais dos seus pares. Nada disso. A ideia é motivar, já que o ser humano gosta de ser motivado. Todos precisamos de doses de dopamina, de adrenalina, de oxitocina, não sempre para as mesmas ocasiões e com doses altamente variáveis: a dopamina é produzida com tudo o que é novidade, a adrenalina com tudo o que nos excita e a ocitocina com tudo o que nos dá o conforto e o aconchego das relações duradouras. Talvez a arte de manter um casamento vivo e com saúde seja a combinação incansável e infinita de segurança com uma pitada de aventura, de cultivar o charme do quotidiano, de viver cada dia como se fosse o primeiro e cada noite como se fosse a última. Difícil? Difícil é ser malabarista e conseguir pôr a girar dez ou mais pratinhos ao mesmo tempo sem nenhum cair. Difícil é já não sentir amor por alguém e continuar a dormir na mesma cama. Difícil é não acreditar que a vida pode correr bem, ou pelo menos um bocadinho melhor, se nos esforçarmos para isso.

Uma coisa é certa, os homens bem casados vivem mais anos e têm menos problemas de saúde. Brindemos então a esses bons rapazes que se investem tempo a amor no seu agregado e que aguentam os embates da vida com a capa de Super-Herói Quotidiano. Eles são os nossos verdadeiros heróis que vestem a camisola da nossa equipa, parceiros à altura das nossas heroínas nacionais, mulheres fortes e determinadas, que tanto podem passar o dia a dirigir uma equipa de 80 pessoas, como se aplicam nos trabalhos de Matemática da filha do meio ao final da tarde e à noite escolhem uma boa lingerie. Não preciso de citar o Marco Paulo, a sabedoria popular do inconsciente coletivo completa as palavras do refrão, uma lady na mesa, lálálá. Isto porque são precisos dois para dançar tango, e se uma boa mulher pode fazer um bom marido, o inverso também se aplica.

Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto é uma das mais famosas escritoras nacionais, com 26 livros publicados, 16 dos quais romances, e com mais de um milhão de exemplares vendidos numa carreira de 30 anos. Margarida decidiu que ia ser cronista quando tinha apenas 10 anos e leu As Farpas e os textos de Manuel Portugal no Tempo. Publicou a sua primeira crónica no primeiro número d’ O Independente, como cronista-mistério: chamava-se Miss X 22, a sua idade à época. Gosta de comida japonesa, de ir ao ginásio cinco vezes por semana e é viciada em sms. Escreve na visão.pt sobre sexo, amor e bom senso, com uma pitada de flor de sal. Porque a vida sem sal não tem graça nenhuma…