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Partir os pratos sem ninguém ver

Flor de Sal

Margarida Rebelo Pinto

Taiyou Nomachi/ Getty Images

Fiquei fascinada. Há vinte anos era impensável ouvir duas mulheres a discutir técnicas de sexo oral num local público da moda. Duas executivas, vestidas com roupa de marca e apetrechadas com malas de monogramas mais ou menos visíveis, no intervalo do almoço, entre duas reuniões, ou dois contratos importantes. Margarida Rebelo Pinto ouviu uma conversa inesperada e partiu daí para mais esta crónica do Flor de Sal

Quando se vive só e se é escritor tempo inteiro, ouvir as conversas dos outros faz parte do ofício. Em bom rigor, esta mania não tem a ver com a minha condição atual, é antes herdada da minha adolescência curiosa e investigadora. Eu ia beber a bica aos cafés do bairro, sozinha ou com amigos, só para apanhar frases, ideias e histórias, expressões e ditados mais ou menos populares proferidos por pessoas sentadas nas mesas mais próximas, ou encostadas ao balcão. Fazia o mesmo no 33, o autocarro que apanhava para o Liceu D. Filipa, onde tive uma professora de português que desesperava com as minhas redações enfáticas, argumentando que eu era uma adolescente com excesso de imaginação. E depois no 15 ou no 50, que me levavam ao Liceu Maria Amália, com uma subida pena pela Rua de Campolide, onde imaginava que me cruzava com o Sérgio Godinho para poder cantarolar com ele com um brilhozinho nos olhos. Esta sede de ouvir as conversas alheias também me dava para executar silenciosas perseguições pedonais. Mal ouvia um fio de conversa que me agarrasse, seguia-o com a discrição de um praticante de Kung-Fu. Quiseram a sorte e a habilidade que nunca fosse apanhada.

Não conheço nenhum escritor que não tenha esta mania. Os jornalistas confiam nas suas fontes e na sua intuição para juntar as peças e construir uma notícia, os escritores apanham um fio de realidade e vão entrelaçando esse fio com a memória, o desejo e a imaginação, até criarem personagens por quem se apaixonam e, com essa paixão e crença, construírem um livro. Com o tempo, vou-me encantando cada vez menos com as minhas personagens e também com as pessoas reais. No entanto, há poucas semanas a vida surpreendeu-me. Fiquei sentada ao lado de duas amigas no balcão de um dos restaurantes mais badalados de Lisboa. Eram mulheres na casa dos 40, estavam elegantemente vestidas, a conversar animadamente sobre sexo oral. Tal e qual. Vou dar-lhes nomes, para a cena ficar ainda mais colada à realidade. Teresa e Sara. A primeira, vistosa e de formas generosas, o cabelo solto num despenteado trabalhado, e a segunda de vestido escuro clássico e sapatos fechados. Eram ambas atraentes e chamativas, já que a massa masculina em redor não parava de olhar para elas. Teresa falava com tom de professora, como quem está a dar uma palestra e eu ouvia palavras como tudo tem a sua técnica, seguras em baixo, começas devagar, pensa que estás a comer o teu gelado preferido. No início nem percebi do que falavam. O ar concentrado da Sara, com expressão de ouvinte atenta, não levantava a menor suspeita quanto ao teor da conversa. Imaginei-a a tomar notas mentais, porque acenava com a cabeça, fazia perguntas e parecia refletir nas respostas. Não é que goste muito, mas já percebi que para eles é muito importante, desabafou com um suspiro sincero. Nesse caso, o melhor é treinares, respondeu a outra, com ar de instrutora de uma atividade desportiva de alta competição. Como? perguntou a aluna aplicada, desejosa de entrar para o quadro de honra. Experimentas em casa, com o simulador. Tal e qual. Ela usou a palavra simulador. E a amiga respondeu, sem se desmanchar, vou mesmo fazer isso, ponho uma música ambiente para descontrair, fecho os olhos e aplico-me.

Fiquei fascinada. Há vinte anos era impensável ouvir duas mulheres a discutir técnicas de sexo oral num local público da moda. Duas executivas, vestidas com roupa de marca e apetrechadas com malas de monogramas mais ou menos visíveis, no intervalo do almoço, entre duas reuniões, ou dois contratos importantes. Há quarenta anos nem sequer era comum ver duas mulheres a almoçarem sozinhas fosse onde fosse. Em seguida, a conversa passou para o ranking das melhores escolas, atividades extra- curriculares e ocupação de tempos livres das crianças durante as férias, os saldos das melhores marcas e quais os sites onde se encontram as propostas imperdíveis. Em algum momento, saltando e assunto em assunto, vi as expressões faciais sofrerem algum tipo de alteração. Ora isto fez-me pensar num novo paradigma de mulher, cada vez mais comum era assumido que é a que faz tudo o que quer e parte a loiça toda sem nunca descer do salto. Elas existem e são cada vez mais.

As práticas sexuais mais ou menos ousadas já não são assunto de bas-fond, circunscritas a casas de má fama, bares de strip-tease, casa de massagens ou outros lugares onde os homens vão procurar assistência de profissionais do setor lúdico. A culpa, fatalmente associada ao prazer está a perder pontos e a luxúria já não é um pecado. Pelo contrário, com os índices de atividade sexual a diminuírem por excesso de stress e adição à pornografia que entalou o sexo em práticas egocêntricas hedonistas e solitárias, já é um quase um luxo. Há vinte anos, com a série O Sexo e a Cidade, as mulheres no mundo ocidental perceberam que podiam falar de sexo e praticá-lo com liberdade e responsabilidade sem serem consideradas profissionais do ramo. O grande problema é que os homens ainda não conseguiram encaixar o novo paradigma feminino: por um lado gostam de uma parceira desinibida, por outro têm recorrentemente aquele pensamento machista, se ela é assim comigo, é assim com todos. Não é tal, caros senhores, não é tal. O homem ama aquilo que deseja, a mulher deseja aquilo ama. Se não houver uma emoção a validar o ato, rapidamente se desinteressa. Ou nem sequer se empenha. Praticar bom sexo, incluindo sexo oral com o parceiro, é quase sempre uma prova de amor para as mulheres. É certo que umas o fazem com mais gosto do que outras, mas sem o desejo ligado ao coração, quase sempre recuam.


Todos gostamos de dar e de receber prazer. De uma forma ou de outra, o prazer é importante para o bem-estar geral. Não sendo um sinónimo de felicidade, é certamente um dos caminhos para a atingir. O sexo oral é parte integrante do prazer sexual. Não conheço nenhuma mulher nem nenhum homem que não gostem de ser brindados com tal gesto. Mas entre aquilo que se faz entre quatro paredes e ouvir duas mulheres de quarenta anos a discutir o assunto com desenvoltura e nível, vai aquela distância entre um país tacanho e uma cidade cosmopolita. Gosto de acreditar que estamos mais evoluídos, fico por isso horrorizada quando oiço casos de raparigas que ainda casam virgens. Nada contra, mas não reconheço em tal atitude qualquer margem útil. Se nem o Bê-a-Bá praticaram, como vão chegar ao próximo nível? Quem nunca leu o Asterix, não consegue apreciar Javier Marías.

Falar de sexo e discutir técnicas de dar e de receber prazer não faz das mulheres umas perdidas, sem critério nem virtude. Fazer sexo às escondidas, com sentimentos de culpa e sem alegria, com ou sem requintes de oralidade, é que pode fazer mal à saúde. Física, mental e emocional.

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Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto é uma das mais famosas escritoras nacionais, com 26 livros publicados, 16 dos quais romances, e com mais de um milhão de exemplares vendidos numa carreira de 30 anos. Margarida decidiu que ia ser cronista quando tinha apenas 10 anos e leu As Farpas e os textos de Manuel Portugal no Tempo. Publicou a sua primeira crónica no primeiro número d’ O Independente, como cronista-mistério: chamava-se Miss X 22, a sua idade à época. Gosta de comida japonesa, de ir ao ginásio cinco vezes por semana e é viciada em sms. Escreve na visão.pt sobre sexo, amor e bom senso, com uma pitada de flor de sal. Porque a vida sem sal não tem graça nenhuma…