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A construção do amor

Flor de Sal

Margarida Rebelo Pinto

MAURO PIMENTEL/ Getty Images

Apaixonada por Chico Buarque desde os seis anos, Margarida Rebelo Pinto resume que o músico, compositor e autor "tem todas as ideias, sentimentos e palavras dentro dele". "Tenhamos a capacidade de o ler e o ouvir com o coração aberto e de aprender com ele que o amor quase nunca é perfeito, mas que ainda assim, vale sempre a pena ser vivido sem medo". No Flor de Sal desta semana

Há dias que são atravessados por notícias luminosas. Na passada terça-feira, dia 21 de maio, foi anunciado o vencedor do Prémio Camões: Chico Buarque, compositor, poeta, músico, letrista e romancista. Não existe ordem possível na enumeração dos seus talentos, por serem todos tão grandes. Chico Buarque foi o meu primeiro amor, aos 6 anos, quando ouvia em loop o álbum “Construção”. Eu mergulhava nas músicas enquanto me deixava hipnotizar por aqueles olhos verdes e me enredava naqueles caracóis pouco arrumados. É por culpa dele que só me apaixono por homens inteligentes. Foi com ele que interiorizei as anáforas e as aliterações, ainda que de forma inconsciente porque estava no primeiro ano, que na época se chamava primeira classe. O meu irmão Gonçalo, dado a exercícios de memória, decorava com fervor e sucesso o poema “O Operário em Construção”, escrito em 1956 por Vinicius de Moraes, e eu pensava que o autor era o mesmo porque contava a mesma história, a de um operário alienado pelo seu trabalho mecânico, explorado pelo seu patrão, que morre num acidente de trabalho.

Em casa dos meus pais aprendi muitas coisas maravilhosas: o valor da família, a importância do amor, a inviolabilidade da integridade, da independência e da liberdade e a paixão pela música em geral, com destaque para a que chegava do Brasil, editada em LP’s de capas magnificas, alguns com as letras impressas que faziam as minhas delícias. Eu lia e decorava, embora sem a capacidade de memorizar do meu irmão. Aqueles versos cresceram comigo, ou eu é que cresci como eles, pois agora sei o quanto moldaram o meu pensamento, a minha forma de sentir e a minha pena de escritora. Amou daquela vez como se fosse a última, cantava o Chico, e eu acreditava que o amor era isso mesmo, só valia quando desejamos que aquela pessoa que está connosco, seja para sempre. Percebi isso aos 6 anos, e mais de 40 anos depois, penso exatamente da mesma maneira: na cama e na vida, para o bem e para o mal.

São incontáveis os versos que me influenciaram ao longo da vida enquanto mulher, amante, mãe, escritora, poeta e letrista, área onde comecei há pouco tempo a tentar dar os primeiros passos. O romance “Leite Derramado”, li-o três vezes e o “O Irmão Alemão”, duas, seguidas, porque tudo aquilo que é muito bom na vida, é para repetir quantas vezes nos apetecer. Chico é carioca de gema, e como todos os cariocas, apaixonado pela cidade maravilhosa, a cidade onde, segundo crenças místicas populares passa o meridiano do coração do Universo. Não sei se passa ou não, só sei que o Rio de Janeiro emana uma felicidade única que vem do chão e sobe pelas pernas até chegar ao coração pela veia cava, espalhando luz e alegria por todo o corpo. O amor de Chico pela sua cidade e amor ao próprio amor está expresso numa das suas canções menos conhecidas, Futuros Amantes, na qual ele fala do poder eterno dos amores adiados. Outras letras, como Apesar de Você, Olhos no Olhos, Pedaço de Mim e Tatuagem, marcaram gerações e vão continuar a marcar, porque tudo o que é excecional ganha as asas da eternidade. Mulheres de Atenas, João e Maria, todas as músicas que constituem A Ópera do Malandro e Minha História fazem parte do meu quotidiano e de uns quantos milhões para quem a português é a língua materna. As letras de Chico Buarque têm tanto de sabedoria como de paixão, de amor alucinado como de lucidez, de leveza como de profundidade, de tristeza como de dignidade, de sonho como de desilusão. Está lá tudo, como numa grande história de amor.

A alquimia de um grande amor – que dá, invariavelmente uma grande história de amor, quer seja escrita ou não, – é que está la tudo: paixão, vontade, alegria, esperança, entrega, confiança, cabeça, coração e corpo, pernas, peito e braços, muita boca e muitas mãos, abraços, suspiros, prazer, conforto, sonho, presente e futuro, saudades do que ainda não se viveu, dias bons e dias tristes, medo de falhar, mas sobretudo vontade. Vontade de estar, de agarrar, de proteger, de ajudar a crescer, de ouvir, de construir. No fim de contas, o amor é sobretudo o desejo de construir algo com alguém. Alguém que, com todos os seus defeitos, é, aos olhos do nosso coração, a pessoa com que podemos formar uma Dream Team na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, dia e noite, até quando Deus Mandar.

O amor é uma construção. Se amarmos sem construir, o que fica depois da loucura da paixão? Não se trata de casar, procriar, contrair empréstimos que nos fazem reféns durante décadas, brincar às famílias felizes e tirar lindas fotos em escadinha numa ponte idílica durante as férias de Verão e ao lado da árvore na noite de Natal. O amor é uma construção interior que começa em nos amarmos como somos e tentarmos ser todos os dias pessoas melhores. E fazer isso por nós, não pelos outros. Love yourself so we have something in common.

Quem não se gosta por dentro, não consegue gostar para fora. Citando esse outro grande poeta, quase desconhecido, José Agostinho Batista, tudo o que existe, só existe por dentro. Chico Buarque tem todas as ideias, sentimentos e palavras dentro dele. Os seus múltiplos talentos combinaram-se para dar ao mundo o que de melhor se escreveu em língua portuguesa nas últimas décadas. Tenhamos a capacidade de o ler e o ouvir com o coração aberto e de aprender com ele que o amor quase nunca é perfeito, mas que ainda assim, vale sempre a pena ser vivido sem medo. Como já escrevi tantas vezes, mais vale ter pouco juízo do que não sentir nada. Um dia, se tiver oportunidade, pergunto ao Chico Buarque se concorda comigo. Tenho quase a certeza que sim.

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Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto

Margarida Rebelo Pinto é uma das mais famosas escritoras nacionais, com 26 livros publicados, 16 dos quais romances, e com mais de um milhão de exemplares vendidos numa carreira de 30 anos. Margarida decidiu que ia ser cronista quando tinha apenas 10 anos e leu As Farpas e os textos de Manuel Portugal no Tempo. Publicou a sua primeira crónica no primeiro número d’ O Independente, como cronista-mistério: chamava-se Miss X 22, a sua idade à época. Gosta de comida japonesa, de ir ao ginásio cinco vezes por semana e é viciada em sms. Escreve na visão.pt sobre sexo, amor e bom senso, com uma pitada de flor de sal. Porque a vida sem sal não tem graça nenhuma…