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No país da Chico-Espertice

Em sincronização

Mafalda Anjos

Luís Barra

Todos os que se mobilizaram para ajudar na tragédia de Pedrógão Grande exigem agora saber o que se passou nos esquemas suspeitos de desvios de dinheiros para a reconstrução

Somos, para o bem e para o mal, um País de Chico-Espertos. Na maior parte das vezes até achamos certa graça aos casos que pululam à nossa volta, porque bem lá no fundo nos orgulhamos desta característica bem vincada do desenrascanço nacional. Chico-Espertos há muitos, encolhe-se os ombros e olha-se para o lado – vale lá a pena tentar remediar o que não tem remédio? A passividade com a Chico-Espertice só sai da benevolência habitual quando nos toca ao bolso ou ao coração – quando o caso mete dinheiro ou grandes desafortunados. Não é a Chico-Espertice em si que verdadeiramente indigna, só os seus resultados por comparação ou oposição.

No País dos Chico-Espertos, há quem não olhe a meios para atingir certos fins. Nem mesmo durante a enormidade da tragédia nacional como os incêndios que devastaram o Centro de Portugal e vitimaram 66 pessoas. Depois da catástrofe, solidários, os portugueses mobilizaram-se para ajudar, reunindo donativos superiores a 16 milhões de euros. A prioridade para a atribuição de fundos eram, claro, as situações urgentes e muito gravosas: pessoas que perderam nas chamas a sua casa de família, a primeira habitação. Compreensivelmente, essas eram as situações que teriam de ser atendidas com a maior rapidez.

O que fazem os Chico-Espertos? Aproveitam a deixa para furar o sistema e passar à frente de quem perdeu tudo, propondo para reconstrução casas (próprias) que não eram habitações permanentes. Foram sete casos os que a Visão recolheu (as denúncias recebidas muito mais), socorrendo-se de toda a documentação que comprova que à data dos incêndios aquelas situações não correspondiam a primeiras habitações, mas sim a casas de férias ou outras situações não elegíveis. Quase todos recorreram do mesmo truque: a mudança da morada fiscal destas casas já depois da data do incêndio. Noutros, todos sabiam que há anos que não se via ninguém entrar ou sair daquela casa. Chovem acusações de favorecimento e compadrio nas instruções dos processos, quando ainda faltam reconstruir mais de uma centena de casas em Pedrógão e outras foram mal reconstruídas.

Na pressa de resolver os problemas, esqueceram-se as cautelas. Um formulário de quatro páginas bastava para atestar que a casa era primeira habitação no momento do fogo, bastando uma declaração do requerente, que se esperava que estivesse de boa fé. Boa fé que, provavelmente, ninguém chegou a verificar nos incêndios de junho. A partir de outubro, já se lançaram trancas à porta da Chico-Espertice: passou-se a exigir desde logo que os lesados apresentassem um comprovativo do domicílio fiscal como facturas de água ou luz à data dos incêndios.

Depois da denúncia pública da Visão na capa desta semana, assinada por Octávio Lousada Oliveira, a indignação cresce em Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos, onde a revista esgotou às primeiras horas da manhã de quinta-feira, mal chegou às bancas. Há semanas que o tema começou a ser conversa entre a população – falamos, afinal, de terras pequenas onde todos se conhecem bem.

“É uma perseguição que me andam a fazer”, acusa agora Valdemar Alves, presidente da Câmara de Pedrógão Grande, quando confrontado com a reportagem, atirando ser “um trabalho de invejosos de má fé”, “uma reportagem encomendada”. No País dos Chico-Espertos, nem os políticos escapam: curiosamente, teve 21 dias para responder aos sucessivos pedidos da Visão e esteve sempre indisponível para falar ou responder a quaisquer questões. (Valdemar Alves, note-se, é responsável, no processo de atribuição de fundos, pela instrução, pareceres técnicos e decisão final.) Explicações que continuam por dar, e que agora terão de ser prestadas perante o Ministério Público. E, já agora, perante todos aqueles que, como muitos de nós, se mobilizaram para ajudar.

Mafalda Anjos

Mafalda Anjos

Diretora

Germanófila por educação, entranhou-se-lhe o método e uma certa ética alemã. Estudou para advogada e chegou a pensar que ia ser constitucionalista, mas viu a luz no jornalismo, que continua a apaixoná-la todos os dias. Desde 2015 na VISÃO, esteve antes 10 anos na economia, nos quais passou por vários títulos, e depois no Expresso, onde editou a revista durante 7 anos. Gadget freak, atenta às tendências globais, devoradora de revistas, precisa de internet como de água potável. Quatro filhos, um marido, um cão e uma pão de forma chamada Marisol. Sim, é loira, e então?