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Yes we do care, Melania Trump!

Chip Somodevilla

“I really don’t care, do you?” leva Melania às costas quando visita o abrigo no Texas onde separam as crianças dos pais. Sim, nós queremos saber

Pode uma peça de roupa representar na perfeição a essência de uma governação? Na América de Trump pode tudo. Até isto, que é tão disparatado e inconveniente que não dá para acreditar. Há tantas coisas erradas aqui que nem sei por onde começar: 1. Saberá a Melania ler? 2. Consegue entender que em nenhuma circunstância uma primeira dama pode usar um casaco destes? 3. Entenderá ela que usá-lo é mau, mas pior ainda se for no contexto de uma indignação global com o que se passou nas fronteiras dos Estados Unidos e sobretudo se estiver em visita ao próprio local? 4. Alcançará a senhora que esta é a maior contestação pública que o seu marido atravessou, sendo pela primeira vez forçado a recuar numa decisão por causa da indignação geral? 6. Não existe um chefe de protocolo que passe estas coisas em revista? 5. Terá alguém visto esta capa da Time antes de escolher este modelito para a Senhora Trump? 6. Ou será que foi escolhido exatamente por isso?

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Sim, um casaco pode representar a essência de uma governação. Na América de Trump, as palavras não contam. São coisas ditas da boca para fora, são letras em papel, na parede ou num casaco, importa muito pouco o que significam. Na América de Trump, as palavras não são mensagens, não são verdade ou mentira. Na América de Trump, as palavras são uma massa amorfa, mais ou menos moldável, como a realidade que tenta ajustar à sua vontade. Fake ou real, que se lixe. Mentiras, impropérios, ofensas – venham elas se derem jeito para conquistar apoios ou ficarem bem com os ténis Stan Smith e derem um ar blasé à indumentária do dia. Vou visitar os abrigos onde 2000 crianças foram retiradas aos pais num ato de selvajaria desumana e levo uma mensagem ofensiva às costas? I really don’t care.

Escrevi esta semana que Trump era o grau zero do humanismo e do sentido de estado, o grau zero da compaixão, da decência, da moralidade. Estou enganada: estamos abaixo de zero, para lá da superfície, a submergir num mundo cada vez mais insano, cada vez mais parecido com os anos do 30 pré-Guerra, a assistir semana após semana ao desmoronar de princípios basilares do equilíbrio de uma ordem mundial. Onde vamos parar ninguém sabe, mas o caminho nesta linha de comboio tem apeadeiros onde não podemos sair.

Só uma coisa nos separa desses tempos: o instrumento da comunicação global que faz da indignação uma arma. Sim, nós queremos saber e não nos vamos calar. Que não nos faltem as palavras – as palavras certas. Venham de lá esses gritos de revolta atirados ao focinho dos ignóbeis.

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