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Esta é a América de hoje: Tolerância Zero, ou o grau zero da compaixão e da Humanidade

Haja estômago para conseguir ler os relatos do que se passa nos armazéns no Sul do Texas, onde estão enjauladas centenas de crianças, filhos de imigrantes e refugiados detidos na fronteira dos Estados Unidos da América, por tentarem entrar ilegalmente no país. Muitas foram separadas dos pais à chegada, a nova estratégia macabra dos EUA para dissuadir as entradas ilegais. Mas ainda pior do que os relatos é o áudio divulgado pela ProPublica (uma entidade sem fins lucrativos que faz investigação), que registou os sons de uma destas detenções num simples ecrã negro com legendas.

Ouve-se uma criança pequena, em aflição, 
a chorar pelo pai e a pedir ajuda. Um choro infantil aflitivo e desesperado, de quem é demasiado pequena para entender a loucura em que está mergulhada a terra das oportunidades que a família tinha como destino final. Não consegui chegar ao fim, consumida em lágrimas a imaginar naquela criança, naquelas crianças, um dos meus filhos pequenos.

São quase duas mil as que já foram separadas dos pais desde que foi implementada esta “Política de Tolerância Zero”, assumiu Jeff Sessions, o attorney general norte-americano, que deve conseguir dormir à noite sem que o eco deste choro 
lhe tire o sono. Tente o leitor ouvir 
o áudio (está no site da VISÃO), só um bocadinho basta: o mundo precisa de saber o que se passa. O mundo precisa de se indignar com isto.

Esta é a América de hoje: Tolerância Zero, ou o grau zero da compaixão e da Humanidade. O grau zero do respeito pelos princípios dos Founding Fathers, que um dia escreveram que “há verdades autoevidentes”, como as de que “todos os homens são criados iguais” e “dotados de direitos inalienáveis, como a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. Uma América à imagem do seu líder, o grau zero do sentido de Estado e do humanismo.

Vem-me à memória O Inominável, de Samuel Beckett, e, sim, eu sei, talvez seja uma comparação exagerada... Mas tomadas as devidas distâncias face a 1949 e ao quanto supostamente o mundo civilizado evoluiu desde então – quando Beckett escreveu o melhor livro desta trilogia do pós-guerra –, e começam a faltar as palavras para tanto inqualificável em tão pouco tempo. As semelhanças com a década de 30 estão à vista. Para quem não se deixar anestesiar com a voragem, resta-nos a indignação, que essa ninguém pode tirar-nos, até ao dia em que a América (e o mundo) acorde do pesadelo.

NOTA: Depois do fecho deste texto, que faz parte da edição 1320 da VISÃO, Donald Trump anunciou que vai acabar com a separação das crianças das suas famílias. Mas a política de tolerância (e grau) zero será para continuar