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A jogada arriscada da Dama de Cobre

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© POOL New / Reuters

Theresa May achou que as eleições de hoje seriam um passeio em Hyde Park num dia de sol. Só que os eleitores, por estes dias, dão para tudo menos para previsões tipo favas contadas

A Margaret Thatcher colou-se a grande frase “The lady is not for turning”, qualquer coisa, numa tradução livre, como “a senhora não verga”, depois de um memorável discurso na conferência dos Conservadores que proferiu em 1980. Depois do discurso em que 
antecipa eleições gerais para 
8 de junho, a Theresa May pode vir a colar-se a frase “the lady is for u-turning”, ou “a senhora é adepta das inversões de marcha”. Theresa May, que repetiu até bem recentemente que não queria ir a eleições antes de 2020, é essencialmente uma jogadora estratega, mais do que uma dama de ferro. E esta convocação de eleições antecipadas é uma jogada com tanto de inteligente como de arriscada.

O que está afinal em causa? May alega que, com o Parlamento dividido, não tem condições internas para negociar um Brexit com a União Europeia. Corbyn, líder dos Trabalhistas, tem manifestado uma clara (embora pouco convincente) oposição, defendendo uma versão mais suave do acordo, uma saída soft por oposição à dura que os Conservadores advogam. Com enorme vantagem no Parlamento e nas sondagens, e gozando de grande popularidade, May viu a janela de oportunidade para reforçar a sua posição. Todos os líderes políticos gostam de ter legitimidade democrática, e afinal ela não foi eleita. Quer agora conquistar o voto do povo, dando como certo que a vantagem confortável que tem e o estado deplorável da oposição lhe vão permitir fazer isto como um passeio em Hyde Park num dia de sol.

Só que, como bem claro ficou nos últimos tempos, os eleitores por estes dias dão para tudo menos para previsões tipo favas contadas. Os dias de sol escasseiam, os tempos estão mais género tropical: de repente, quando menos se espera, os céus escurecem e pode vir uma chuvada torrencial. O mais provável é que May saia de facto reforçada e que use esta vitória como uma legitimação da sua versão hard do acordo de saída.

Muito pode, em teoria, acontecer em 50 dias de campanha, um período relativamente longo para os standards britânicos: os trabalhistas podem reorganizar-se e conseguir montar um discurso coerente que capte os 48% de votantes que preferiam ficar na UE, cavalgando a ideia de que May não é de confiança. Os Liberais Democratas, que se opõem à saída, podem ganhar terreno como uma espécie de voto de protesto.

Em cima da mesa estará sempre uma remota segunda oportunidade para emendar a mão no Brexit ou se escolher uma via menos radical. Vai jogar-
-se o tudo ou nada no Reino Unido. Façam as vossas apostas.

Artigo publicado na VISÃO nº 1259 de 20 de Abril, na semana em que foram convocadas as eleições gerais no Reino Unido