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Sorte a nossa

Mãe a consolar a filha num campo de refugiados em Degabas, depois de ter sido obrigada a fugir com a família de Mosul, no Iraque. Primeiro prémio no World Press Photo deste ano na categoria Pessoas, da autoria de Magnus Wennman, da Suécia

Magnum Wennmam

Não nos podemos resignar, mas de quando em vez é mesmo bom lembrarmo-nos disto. E já agora, recordá-lo aos nossos filhos para que não deem tudo por garantido.

Para alguém bem-sucedido, aceitar o fator sorte como determinante no seu sucesso é sempre um sapo difícil de engolir. Afinal, quem se saiu bem na vida tende a acreditar que lá chegou exclusivamente graças aos méritos próprios, ao seu talento e ao empenho que depositou a estudar e a dar o litro. Era bom que assim fosse – o mundo era um lugar muito mais justo se todos os bons e esforçados conseguissem ter oportunidades e reconhecimento. Só que, infelizmente, não é mesmo assim. A sorte conta e muito.

As circunstâncias não são determinantes fatalísticas (e há muitos exemplos de quem fintou destinos miseráveis que lhes pareciam traçados), mas têm enorme peso. 
A sorte de nascer num meio privilegiado e de ter uma família que dá boas bases, ampara e abre portas. 
A sorte de conseguir uma chance numa boa empresa, de ter chefes justos e competentes. A sorte de conseguir um financiamento para se lançar por conta própria. Ou a sorte, simplesmente, de estar um dia no sítio certo na hora certa. Poder gozar do acaso feliz de ser a pessoa indicada naquele contexto específico naquele timing concreto.

A sorte dá muito trabalho, dirão alguns crentes arreigados da meritocracia. É um facto que só com ela não se vai longe, para se agarrar uma oportunidade é preciso preparação e desempenho, para 10% de inspiração tivemos de ter os tais 90% de transpiração. Mas é aquela centelha de sorte (e de otimismo, acrescento eu) que alguns têm e outros igualmente competentes porventura não terão que pode fazer a diferença. Uma curiosidade: sabia que quem admite que a sorte teve influência na sua vida tende a ser mais generoso com os outros? Vários estudos científicos comprovam-no, como explica Robert H. Frank no livro Success and Luck: Good Fortune and The Myth of Meritocracy.

Ando às voltas com esta ideia desde que vi a exposição World Press Photo 2017, que premeia o melhor fotojornalismo que se faz no mundo, pela 16º vez trazida a Portugal pela VISÃO (no Museu de Etnologia até dia 21 de maio). Olhar para aquelas mais de 100 fotografias é um banho de realidade nua e crua – inquieta, faz pensar. Em comum o Homem e a sua finitude, a mesma dor, a mesmíssima angústia em várias latitudes e geografias. Assalta-me um pensamento tão frequente nas cabeças dos portugueses quando confrontados com as notícias loucas que nos chegam dos quatro cantos do mundo: que sorte a nossa ter nascido aqui. Num país em paz, desenvolvido, democrático. Somos pobres, endividados e mal pagos, mas, ainda assim, que sorte a nossa. Não nos podemos resignar, mas de quando em vez é mesmo bom lembrarmo-nos disto. E já agora, recordá-lo aos nossos filhos para que não deem tudo por garantido.

(Crónica publicada na VISÃO 1261, de 3 de maio de 2017)