Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Péricles e Nietzsches, procuram-se

  • 333

Além de engenheiros, matemáticos ou físicos,tecnológicas de Silicon Valley procuram cada vez mais especialistas em Filosofia para cargos como “futurologista”, “desenhador de ética” ou “analista de procedimentos”

Que tipo de profissionais querem recrutar as empresas tecnológicas de Silicon Valley? Se lhe desse três hipóteses para responder, aposto que em nenhuma delas diria filósofos. Pois fique sabendo que além de engenheiros, matemáticos ou físicos, estas empresas procuram cada vez mais especialistas em Filosofia para cargos como “futurologista”, “desenhador de ética” ou “analista de procedimentos”. 
E porquê? Segundo o El Mundo, que dedicou esta semana na revista Papel de domingo um artigo ao assunto, para ajudarem a pensar e razoabilizar o futuro e a ponderar as questões éticas e os dilemas morais que as evoluções tecnológicas trazem. Faz sentido, sobretudo quando se avança na Inteligência Artificial, que trilha caminho no que já foi uma quimera e agora já é realidade: meter as máquinas a aprender e a pensar, essa atividade outrora apenas atribuível ao Homem. 
O domínio da lógica e a capacidade para antecipar, retalhar e analisar questões são características cada vez mais importantes nesta área. Basta recordar que uma das mentes mais disruptivas e bem sucedidas da indústria é Peter Thiel, fundador da Paypal, licenciado em Filosofia.

Curiosamente, li este artigo enquanto devorava o novo livro de Henrique Monteiro, jornalista ex-diretor do 
Expresso, que acaba de lançar Grandes Discursos da História e onde, obrigatoriamente, começa por recuar aos tempos dos grandes filósofos da Antiguidade. Dei por mim a pensar como fazia falta que a política recrutasse para o aparelho uma parte significativa de filósofos, gente que ajudasse a pensar o mundo... com lógica. Ou simplesmente, cabeças que voltassem aos clássicos, porque está lá tudo, como tão bem se percebe nesta obra. Basta ler a oração fúnebre de Péricles, proferida em Atenas em 430 a.C., durante a Guerra do Peloponeso, para em meia dúzia de linhas se perceber conceitos essenciais, com nuances esquecidas na atualidade. Aqui fica um trecho, que podia ter sido escrito hoje: “O seu nome é democracia, pois a administração não está nas mãos de muitos mas de poucos. Existe justiça para todos os cidadãos em disputas privadas – pois todos são iguais perante a lei; e enquanto um cidadão é escolhido para um posto, é preferido pelo seu serviço público e não privilégio, mas sim por recompensa ao mérito. Logo a pobreza não é um obstáculo, um cidadão pode servir o seu país independentemente da humildade da sua condição. Não há exclusão na nossa vida pública, e na vida privada não suspeitamos do próximo, nem nos zangamos com o nosso vizinho por agir como deseja.” Não seria bom se conseguíssemos dizer que tudo isto é assim hoje em Portugal?

(Artigo publicado na VISÃO 1256, de 30 de março de 2017)