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Parar o vento com as mãos

Em sincronização

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© Sergio Perez / Reuters

Aos taxistas só resta uma solução: melhorar serviços e repensar estratégias. Hostilizar a opinião pública e afugentar clientes é a bandeirada para o desastre.

Dizem os especialistas de marketing que a melhor campanha de branding é aquela que não é feita pela própria marca. E melhor ainda será se for feita pela concorrência. O que se assistiu esta semana nas televisões portuguesas, que transmitiram em direto e em contínuo os protestos dos taxistas, foi um exercício de suicídio coletivo da classe. E a melhor propaganda possível para a Uber e a Cabify. Tudo ajuda a descredibilizar a imagem dos taxistas junto da população. A forma arruaceira com que se manifestaram — que exigiu o uso de gás pimenta, balas de borracha e detenções —, a violência verbal e física a que os protestos chegaram, os carros vandalizados à vista de todos, o nível de argumentação de quem é entrevistado, incluindo os próprios representantes da classe, é pedra sobre pedra de um muro que afasta cada vez mais potenciais clientes.

É que há pérolas que ficam na memória. Como esta, uma entre várias tiradas “fantásticas” desta semana: “Não somos nada arruaceiros. Mas é assim: eu agora chegava aqui com uma caixa de bolos e ia para a porta da pastelaria vender bolos, de certeza que o dono da pastelaria me ia correr à pedrada também!” Ou esta, que ganhou o prémio da declaração mais chocante: “As leis são como as meninas virgens, são para ser violadas.” Não haja dúvidas que, depois de ouvir tudo isto, fica-se com uma imensa vontade de andar de táxi…

Para a Uber e Cabify, as vilãs aos olhos dos taxistas, cada dia de protesto é pois sinónimo de mais clientes e quota de mercado. Uma coisa é certa: querer parar este movimento de modernização é mais ou menos como fazer planos para parar o vento com as mãos. Caso os taxistas não se tenham dado conta, há anos que o mundo está a mudar. A culpa é dessa “mania” dar melhor serviço aos clientes e de querer acabar com os monopólios. Tecnologias disruptivas vieram mudar as regras de funcionamento de vários setores: olhe-se para a indústria da música, que se viu voltada do avesso com os suportes digitais e o streaming. Ou, já agora, para os media tradicionais a quem a internet roubou milhões em receitas publicitárias. A Uber e o Cabify exploram buracos legais e fazem-no de forma eficiente. É preciso regulamentar a sua atividade e trazer mais justiça ao setor porque existe concorrência desleal. Mas aos taxistas só resta uma solução: melhorar serviços e repensar estratégias. Hostilizar a opinião pública e afugentar clientes é a bandeirada para o desastre.