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O meu caso contra os TPC

Em sincronização

Mafalda Anjos

O que me importa é educar crianças responsáveis, curiosas, independentes, e sobretudo, felizes. E o atual modelo dos trabalhos para casa pouco ou nada contribui para isso

Tudo começou com a habitual mentirinha de carnaval da VISÃO Júnior. O ministro Tiago Brandão Rodrigues tinha decidido acabar com os trabalhos para casa, escreveu a revista no site. A “notícia” chegou aos tops, fez furor nas redes sociais e foi partilhada e repartilhada: FINALMENTE!, bradavam alguns pais desesperados. Motivo para trazer o tema quente para a capa desta edição da VISÃO, agora nas bancas.

Poucas coisas como os TPC influenciam tanto o dia-a-dia das famílias com filhos pequenos em idade escolar. Qualquer pai conhece bem o filme das lutas ao fim do dia com os deveres. As cenas repetem-se na esmagadora maioria dos lares portugueses: pais cansados a gritar para fazerem os trabalhos de casa, miúdos cansados a dizer que não conseguem ou que querem brincar, ver televisão, ouvir música… ser crianças. A escravidão dos trabalhos de casa determina as rotinas de muitas famílias.

Sei-o por conhecimento de causa. Com três filhos entre os 8 e os 12, já conheci vários tipos de escolas, métodos, professores, técnicas, guerrilhas e greves de zelo. Já berrei muito por causa dos TPC, já me arreliei com a falta de esforço e empenho, já me senti burra por não perceber nada daquilo, já deixei queimar o jantar por causa de um exercício que não saía, já tive vontade de os fazer engolir as fichas e de esganar os professores.

Exige-se uma nota prévia: tenho uma admiração profunda e um enorme respeito pelos professores em geral. Acho o ensino das mais nobres profissões e conheço bem as dificuldades de quem tem de lidar com um sistema sempre em mudança e com pais nem sempre presentes. Os professores são meus heróis, e, pessoalmente, nunca vou conseguir agradecer-lhes o suficiente por ajudarem a fazer dos meus filhos pessoas melhores, mais cultas, mais inteligentes. Dito isto, acho que temos de repensar seriamente a questão dos TPC nos dias de hoje.

A discussão não se restringe a Portugal: nos Estados Unidos, por exemplo, o debate é renhido entre os defensores da causa anti-TPC e os que acreditam que deve continuar tudo na mesma. No início de Março, um artigo da TIME veio trazer mais achas para a fogueira e dar novos argumentos a quem quer acabar com os deveres em casa. Neste artigo, é divulgado um extenso estudo da Duke University, que reúne 180 researchs efetuados durante 16 anos, e que conclui que os TPC fazem mais mal do que bem aos alunos do primeiro ciclo e trazem ínfimos benefícios aos do segundo ciclo. O título da peça era conclusivo: “Porque os pais não devem obrigar os filhos a fazerem os trabalhos de casa”.

Não me vou alongar no debate (para isso, é ler a VISÃO que está nas bancas), mas acho o tema central. Não sou contra os TPC passados com conta, peso e medida e acho-os importantes para sedimentar conhecimentos e ganhar rotinas. Sinto é que em idades muito jovens são contraproducentes: transformam seres curiosos e fascinados com os novos conhecimentos em miúdos avessos aos deveres e ao estudo. Fichas chatas e complexas, que não estimulam a criatividade, são infelizmente a norma. Muita quantidade e pouca qualidade de TPC é a fórmula para o desastre.

O mundo mudou e as horas que as crianças passam nas escolas são muito mais do que nós passávamos há 20 ou 30 anos. A esmagadora maioria dos que vêm com os argumentos de que sempre fizeram os trabalhos de casa e isso nunca lhes fez mal nenhum, só tinham meio-dia de trabalho na escola. Hoje os miúdos têm um emprego mais pesado do que os dos pais: das 9h às 18h, oito ou mais horas ao serviço de contas, cálculos, leitura e afins. Precisam de ter tempo para brincar, para fazerem outras coisas e até para não fazerem nada. É preciso tempo para sossegar, e aos miúdos de hoje escapa-lhes esse direito.

É claro que acabar com os TPC diários acabaria com uma enorme fonte de receitas de muitos colégios: as tão famosas "salas de estudo", em que os pais pagam para os miúdos fazerem os trabalhos acompanhados, mas isso é toda outra conversa...

E depois, há uma questão que é uma velha guerra minha: os TPC são para os filhos e não para os pais. Não se pode exigir que os pais os façam com os miúdos, que fiquem ali sentados a acompanhá-los na sua execução e que, no final, ainda os corrijam. Eduquei os meus filhos a fazerem os TPC sozinhos – acredito que só ganham em autonomia e em sentido de responsabilidade. É evidente que estou ali para qualquer dúvida, mas são eles (as crianças) que têm essa missão, e não eu. E não percebo quando os professores me dizem que devo corrigir os deveres – já recebi várias “admoestações” porque os trabalhos não chegam corrigidos e vão com erros. Pois vão. São eles (os professores) que têm essa missão, e não eu. Até para perceberem o que os alunos efetivamente apreenderam ou não.

Acredito que isso possa eventualmente prejudicá-los na avaliação final. Que em vez dos “excelentes” e “muito bons” possam ter notas piores. Paciência. Ao fim do dia, o que realmente me importa é educar seres responsáveis, curiosos, independentes, e sobretudo, felizes.

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Mafalda Anjos

Mafalda Anjos

Diretora

Germanófila por educação, entranhou-se-lhe o método e uma certa ética alemã. Estudou para advogada e chegou a pensar que ia ser constitucionalista, mas viu a luz no jornalismo, que continua a apaixoná-la todos os dias. Desde 2015 na VISÃO, esteve antes 10 anos na economia, nos quais passou por vários títulos, e depois no Expresso, onde editou a revista durante 7 anos. Devoradora de revistas, gadget freak, atenta às tendências globais, precisa de internet como de água potável. Tem quatro filhos, um marido, um cão e uma pão de forma chamada Marisol.