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Joacine e os exageros da esquerda tribalista

Editorial

Mafalda Anjos

Marcos Borga

Joacine alinha no que já se convencionou lá fora chamar de tribalismo político. Uma retórica cada vez mais dominante de uma certa esquerda, que escolheu a via do entrincheiramento para lutar e para crescer: Não és dos meus e da minha tribo, és o inimigo e estás contra mim

Joacine Katar Moreira é um caso de estudo. O seu percurso, exemplar na sua singularidade, é claramente um marco: uma mulher negra, nascida na Guiné e com um ostensivo problema de gaguez chega ao Parlamento eleita em sufrágio universal, por um partido que nunca teve lá assento, com uma proposta clara: dar um “pontapé no estaminé”. É fácil sentir simpatia pela sua coragem e pelo que ela representa.

Mas se a primeira prova foi ganha, a maratona só ainda agora começou. E a forma como ficará para a História é determinada pelo que fará com este poder recém-adquirido. Chegar ao Parlamento não pode ser o fim, é o início. Não entrarei no debate sobre a sua gaguez e a necessidade (evidente) de, como parlamentar, fazer passar a sua mensagem – estou certa de que encontrará uma fórmula que sirva tanto os propósitos da inclusão, como a sua missão fundamental enquanto deputada. Preocupa-me muito mais a sua retórica política e a postura que ela personifica, e que agora tem, naturalmente, amplificação mediática.

Joacine alinha no que já se convencionou lá fora chamar de tribalismo político. Uma retórica cada vez mais dominante de uma certa esquerda, que escolheu a via do entrincheiramento para lutar e para crescer: Não és dos meus e da minha tribo, és o inimigo e estás contra mim. Se, há 50 anos, a luta dos movimentos dos direitos civis se centrava nos valores da igualdade e da justiça social com uma retórica inclusiva e humanista que transcendia grupos – da qual o célebre discurso de Martin Luther King é o melhor exemplo –, hoje cresce uma esquerda radical que, cansada do que entende ser o passo lento da mudança, escolheu o confronto, a divisão e a exclusão para se fazer notar.

Esta esquerda abandonou a mensagem universalista e a “clássica” ideia de luta de classes para escolher a via da política das identidades, priorizando preocupações e interesses de grupos e minorias sub-representadas, tendo em conta a sua etnia, a sua religião, a sua orientação sexual ou cultural. Em vez de advogar uma política voltada para o mundo, entrincheira-se no que é uma abordagem fechada, voltada para dentro, rodeando-se de uma suposta nobreza moral que a coloca acima de quaisquer críticas.

É nesta ala que a radicalização do politicamente correto vai mais longe: depressa se passa para discursos em que se defende apagar a memória e reescrever a História (e que aconselham a retirar estátuas, esconder quadros, banir livros), negar evidências científicas biológicas (que dizem que as mulheres e os homens não são biologicamente distintos) ou comunicar de forma impercetível (qualquer dia, vamos ouvir um “bom-dia a todas e a todos, caras e caros membros da comunidade LGBTTQQIAAP”).

A troca de mensagens entre Joacine e o comentador Daniel Oliveira neste fim de semana no Twitter, a propósito de um texto de opinião em que este sublinhou a personalização da forma de fazer política do Livre, não seria notícia se não fosse sintomática. Ao comparar os argumentos de Daniel Oliveira com os usados pela extrema-direita e ao dizer que nunca mais leria o que este tem para dizer sobre o partido, Joacine mostra ao que vem: deixa antever uma certa tentação totalitária ao negar-se ao debate construtivo e ao colocar todos os críticos, mesmo os que sempre foram da sua “ala”, do lado do “inimigo”.

Com estas e outras ideias, colocadas desta forma, na praça ultrapública das redes e no hemiciclo, um partido como o Chega terá espaço e argumentos de sobra para crescer. Paradoxalmente, é este radicalismo da esquerda que, em grande parte, explica o crescimento de movimentos no extremo oposto um pouco por todo o lado – o tribalismo e os excessos do politicamente correto dão argumentos poderosos para uma ala conservadora e reacionária que se sente ameaçada. Veja-se o absurdo do exemplo dos Estados Unidos da América e do Brasil: de repente, uma esmagadora maioria de norte-americanos, machos e brancos sente-se ameaçada pelas conquistas crescentes das minorias, e contra-ataca. Corre-se o risco de as tradicionais bandeiras da tolerância e da diversidade, que sempre foram de esquerda, passarem para o outro lado do espectro político.

Não tenhamos dúvidas: a incapacidade de uma certa esquerda de se autoquestionar e de ponderar alguns dos seus erros e exageros pode servir pior os seus justos fins últimos – mais igualdade e mais justiça social. Mas quando se aperceberem disso pode ser já tarde demais.

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Mafalda Anjos

Mafalda Anjos

Diretora

Germanófila por educação, entranhou-se-lhe o método e uma certa ética alemã. Estudou para advogada e chegou a pensar que ia ser constitucionalista, mas viu a luz no jornalismo, que continua a apaixoná-la todos os dias. Desde 2015 na VISÃO, esteve antes 10 anos na economia, nos quais passou por vários títulos, e depois no Expresso, onde editou a revista durante 7 anos. Devoradora de revistas, gadget freak, atenta às tendências globais, precisa de internet como de água potável. Tem quatro filhos, um marido, um cão e uma pão de forma chamada Marisol.