Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Rui Tavares Guedes

Rui Tavares Guedes

Diretor Executivo

Uma hora, 59 minutos e 40 segundos inspiradores

Editorial

Rui Tavares Guedes

Mais do que protagonizar uma proeza desportiva, Eliud Kipchoge mostrou ao mundo como, ao trabalhar em equipa e unidos por um mesmo objetivo, os humanos têm a capacidade de superar os desafios mais difíceis

Correr 42 quilómetros e 195 metros em menos de duas horas, em solitário, no meio de um pelotão de atletas de elite que se vão revezando para ajudar a marcar o ritmo e a potenciar a aerodinâmica, pode infringir os requisitos necessários à oficialização de um recorde da maratona, segundo as regras dos organismos do desporto mundial – mas é, sem qualquer margem para dúvidas, uma das maiores demonstrações de como o trabalho de equipa, aliado ao talento, à ciência e à tecnologia, pode encontrar soluções para problemas considerados impossíveis de resolver.

De certa maneira, ainda bem que a extraordinária proeza atlética do queniano Eliud Kipchoge, em Viena, ficou impedida de ser elevada à categoria de recorde do mundo. Se a marca fosse homologada, corria-se o risco de o feito ficar reduzido unicamente à sua dimensão desportiva mais imediata e, por paradoxal que possa parecer, amputado da sua dimensão mais abrangente e inspiradora.

Se Kipchoge tivesse conseguido bater a barreira das duas horas, numa maratona “normal”, cumprindo todas as regras da modalidade, o mais certo seria estarmos agora concentrados nos elogios às superlativas capacidades físicas do atleta, bem como à sua reconhecida força mental, quase sobre-humana. Mas não foi isso que aconteceu. Porque, como se viu, o corpo humano – mesmo o de um extraordinário atleta como Kipchoge – ainda não está fisiologicamente preparado para correr aquela distância, em condições normais e sem as “ajudas” exibidas em Viena, a uma velocidade média de 20,9 km/hora. Para conseguir superar o último grande desafio do atletismo – que equivale a fazer 422 sprints seguidos de 100 metros a 17 segundos cada um – não chegava encontrar um atleta com qualidades físicas e mentais extraordinárias, mesmo que ele já fosse, há vários anos, o maior especialista mundial na distância.

Para vencer este desafio, era preciso acrescentar à força, à disciplina e à determinação de Eliud Kipchoge uma equipa técnico-científica altamente qualificada e experiente, dar-lhe a companhia de 41 dos melhores atletas do mundo, encontrar-lhe o percurso mais adequado, com as condições meteorológicas ideais e, naturalmente, alguém disponível para gastar uns milhões de euros no financiamento desta empreitada.

Na verdade, a corrida de Viena não foi uma prova desportiva, mas sim uma autêntica experiência científica, realizada num laboratório a céu aberto, com milhares de pessoas a assistir e a aplaudir. Em Viena, assistiu-se ao momento de experimentação de uma hipótese que precisava de ser comprovada: a de saber se, em condições ideais de temperatura e de humidade, à hora certa, com a última tecnologia de sapatos de corrida, na cadência de corrida preestabelecida e com a ingestão de doses exatas de hidratos de carbono nos momentos-chave do percurso, se conseguia antecipar aquilo que alguns cientistas do desporto previam só poder ocorrer, na melhor das hipóteses, lá para 2028 ou 2029.

Nestas condições, mais do que protagonizar uma proeza desportiva, Eliud Kipchoge mostrou ao mundo como, ao trabalhar em equipa, com talento e conhecimento reunido um pouco por todo o planeta, e unidos por um mesmo objetivo, os humanos têm a capacidade de superar os desafios mais difíceis e transcendentes.

A marca alcançada – uma hora, 59 minutos e 40 segundos –, embora nunca vá figurar nos anais oficiais do atletismo, ficará para sempre na nossa memória coletiva, como o próprio Eliud Kipchoge fez questão de frisar no final da corrida. “Fizemos História em conjunto e em conjunto podemos fazer um mundo melhor”. Inspirador.

Rui Tavares Guedes

Rui Tavares Guedes

Diretor Executivo