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Rui Tavares Guedes

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Diretor Executivo

O dilema dos indecisos

Editorial

Rui Tavares Guedes

MÁRIO CRUZ/ Lusa

No momento da decisão, os eleitores ainda indecisos vão pensar mais em Centeno ou mais em Tancos?

O que conta mais na hora de decidir o sentido do voto? O estado em que se encontram a Economia e as Finanças do País ou os casos polémicos e de Justiça que afetam a imagem do Governo? Simplificando, no momento da decisão, os eleitores ainda indecisos vão pensar mais em Centeno ou mais em Tancos? Vão prestar mais atenção às novas contas do Instituto Nacional de Estatística que reviram em alta os números do crescimento económico, ao mesmo tempo que baixaram os do défice e os do desemprego, quase todos para valores históricos? Ou vão antes centrar-se na notícia da acusação do Ministério Público ao muito nebuloso “caso” do roubo-achamento-encobrimento de armamento em Tancos e às imensas trapalhadas em que alegadamente terá estado envolvido o ex-ministro da Defesa, Azeredo Lopes?

Vários estudos, realizados ao longo dos anos, indicam que, em média, 80% dos eleitores têm o seu voto decidido ainda antes de a campanha eleitoral se iniciar. São, portanto, os 20% restantes – mais de um milhão dos chamados indecisos – que, no fim, decidem o tamanho das vitórias ou das derrotas. Serão eles que, a 6 de outubro, podem fazer a diferença, no caso do PS, entre uma maioria absoluta e clara e uma vitória “poucochinha”. Mas também são os mesmos que, no caso do PSD, podem marcar a distância entre um resultado “honroso” e uma derrota histórica. E, em certa medida, conforme sejam ou não convencidos pelos dois maiores partidos, serão eles que definirão a relevância das restantes formações no futuro parlamento, com todas as implicações que isso pode ter a nível de coligações e de acordos para a viabilização de soluções governativas.

Estudos recentes têm também demonstrado que, com particular relevância nos últimos tempos, os eleitores tendem a votar mais pela emoção do que pela razão. Muito mais do que aquilo que se “pensa” sobre os candidatos, é valorizado aquilo que se “sente” sobre a sua personalidade e a forma como eles podem desempenhar as funções.

Foi por causa disso que, desde o início, António Costa apresentou “o rigor das contas certas” de Mário Centeno como seu principal trunfo eleitoral. E foi também exatamente pela mesma razão que, depois de um momento atabalhoado sobre quem teria “o melhor Centeno”, Rui Rio deixou de lado, na parte final da campanha, a conversa sobre as Finanças e passou a cavalgar o “caso” Tancos como a sua principal e quase única arma de arremesso.

Mais do que as propostas ou até as diferenças de personalidade, o que conta, na hora da decisão, é o grau de confiança que o candidato inspira. Assim, mesmo que nem sempre se dê por isso, grande parte da retórica das campanhas é passada a tentar criar desconfiança sobre o adversário.

Desde pelo menos 1992, quando James Carville celebrizou a frase “É a economia, estúpido”, para explicar como Bill Clinton iria derrotar George Bush, apesar de este ter vencido a primeira Guerra do Golfo, que sabemos que o estado das Finanças e o comportamento económico são fundamentais na escolha dos eleitores. No entanto, a análise de vários resultados eleitorais tem demonstrado que a economia é muito mais importante para castigar governos por resultados negativos do que para recompensar quem apresenta bons resultados. Nessa perspetiva, o “trunfo” Mário Centeno, embora seja decisivo para manter coeso o núcleo de fiéis, dificilmente terá o mesmo efeito aglutinador sobre os indecisos.

Já os casos de Justiça, como o de Tancos, são ideais para se explorar a emoção dos eleitores e fazer aumentar o tal sentimento de desconfiança sobre o adversário, por mais que este tente explicar que há diferenças entre “acusação” e “condenação” – como se viu no “caso” de Miguel Macedo, também obrigado a sair de um governo, mas absolvido depois em tribunal.

Rui Tavares Guedes

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