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A prova de fogo para a maioria absoluta

Editorial

Mafalda Anjos

PATRICIA DE MELO MOREIRA/ Getty Images

Este jogo de passa-culpas tem sérios efeitos a curto prazo – vale votos em outubro. A perceção que ficar para os portugueses é determinante para a maioria absoluta

Começou o calor e o País voltou a arder. O fogo atacou em Castelo Branco e Santarém, galgando muitas zonas de mato e floresta em Vila de Rei, Sertã e Mação. A área ardida desde o início do ano mais do que duplicou ao longo do último fim de semana. Segundo as estatísticas do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, neste momento, Portugal é já o segundo pior em matéria de áreas ardidas entre os países da União Europeia.

Com o calor vêm os fogos, sempre foi assim. E será – é bom que nos habituemos à ideia –, cada vez pior com as alterações climáticas para os países do Sul da Europa. Vamos ter grandes incêndios nas zonas florestais, de grandes proporções e condições difíceis de dominar, e por isso todos concordam que é preciso agir seriamente na prevenção e no cuidado e limpeza da floresta, e num plano de combate mais racional, mais eficaz e mais coordenado. A jusante é preciso combater o abandono e o envelhecimento do Interior, problemas de base quando se fala do território. Tudo isto é complexo. E não há, infelizmente, varinhas mágicas para evitar que os incêndios aconteçam, nem para os apagar quando entram em zonas de mato muito denso com condições meteorológicas desfavoráveis.

Só que esta espécie de fatalidade geográfica e climática é uma realidade difícil de aceitar quando estamos perante populações aflitas, casas a arder, pessoas feridas pelo fogo. É tentador encontrar um culpado, e o culpado imediato nunca é o pobre vizinho que não limpou os terrenos nem a câmara municipal que não acondicionou as matas. Na cabeça das pessoas, o culpado é o Estado, essa entidade indistinta que, para muitos, falha em todas as frentes: na limpeza, no planeamento e no combate. E, na cabeça das pessoas, o Estado tem um rosto, o do Governo e o primeiro-ministro em funções.

Ninguém quer saber do jogo de passa-culpas entre Governo e entidades locais que já começou. António Costa já disse que os autarcas são os “primeiros responsáveis pela proteção civil em cada concelho”, que devem “prevenir, através da boa gestão do seu território, os riscos de incêndio”, respondendo às críticas do vice-presidente da Câmara Minicipal de Vila de Rei que acusou o Estado de voltar a falhar.

Este jogo de passa-culpas, note-se, tem sérios efeitos a curto prazo – vale votos em outubro. A perceção que ficar para os portugueses desta época de incêndios pode ser fatal para as ambições do PS de conseguir uma maioria absoluta.

Até agora, muitos fatores incontroláveis bafejavam António Costa: um ciclo económico positivo, uma conjuntura política europeia favorável, uma oposição desorientada e a atirar aos próprios pés. Até a meteorologia ajudava, com frio, chuva e um verão que teimava este ano em não chegar. As últimas sondagens atribuíam ao PS um resultado muito próximo da maioria absoluta (43,2%), o dobro das intenções de voto no PSD (21,6%). O objetivo de a atingir, que libertaria o partido do plano B dos acordos e cedências à esquerda, não parece impossível.

Nos próximos meses vem a verdadeira prova de fogo. Até 2017, o PS vinha sempre a crescer nas intenções de voto. Deixou na altura de subir com os incêndios trágicos de Pedrógão e a gestão desastrosa de comunicação que fez – foi este o momento que travou então a subida do PS. Com o País ainda com memórias bem vivas desta calamidade, um verão quente à porta de eleições é uma dor de cabeça que pode deitar a ambição da maioria absoluta a perder. Com a certeza de que o Bloco de Esquerda e o PCP não darão tréguas – a sua estratégia, é bem claro, passará por contestar o conceito de voto útil e evitá-la. A do PSD ainda está para se perceber qual é.

(Edtorial publicado na VISÃO 1377 de 25 de julho)

Mafalda Anjos

Mafalda Anjos

Diretora

Germanófila por educação, entranhou-se-lhe o método e uma certa ética alemã. Estudou para advogada e chegou a pensar que ia ser constitucionalista, mas viu a luz no jornalismo, que continua a apaixoná-la todos os dias. Desde 2015 na VISÃO, esteve antes 10 anos na economia, nos quais passou por vários títulos, e depois no Expresso, onde editou a revista durante 7 anos. Devoradora de revistas, gadget freak, atenta às tendências globais, precisa de internet como de água potável. Tem quatro filhos, um marido, um cão e uma pão de forma chamada Marisol.