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Rui Tavares Guedes

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Diretor Executivo

Mudar o mundo para o salvar

Editorial

Rui Tavares Guedes

D.R.

Mais de metade do carbono libertado para a atmosfera através da combustão de combustíveis fósseis foi emitido nas últimas três décadas. No curto espaço de uma geração

Foram precisos anos de alertas sucessivos, milhares de estudos científicos, mas também muitas catástrofes naturais repetidas. Por fim, a luta contra o aquecimento global e o combate às alterações climáticas passou a estar no centro das prioridades, com um papel relevante no debate político e no momento de decisão dos eleitores. Os bons resultados registados, nas eleições europeias, pelos Verdes, na Alemanha, França, Suécia, Áustria, Irlanda, Dinamarca e Holanda – bem como o crescimento do PAN, em Portugal, com a perspetiva de poder ambicionar a muito mais nas legislativas de outubro –, são a prova disso mesmo, como também o são as muitas propostas sobre o tema que, nos EUA, têm vindo a ser apresentadas pelos vários candidatos do Partido Democrata que se tentam perfilar contra Donald Trump, nas eleições do próximo ano. Em todos eles, os planos para uma vida mais sustentável e os esforços para a diminuição das emissões de dióxido de carbono são peças fulcrais dos seus programas de candidatura.

Com os partidos tradicionais (do centro mas também dos extremos) a afundarem-se, as ideologias fora de moda e as utopias guardadas na gaveta à espera de melhores dias, a defesa do planeta surge, cada vez mais, como o único tema capaz de mobilizar multidões e de unir pessoas com pensamentos, estilos de vida e origens sociais diferentes. É uma causa que, na sua essência, tem tudo para ser consensual e que, ainda por cima, possui valores elevados: trata-se de defender o nosso habitat, as nossas vidas e garantir um futuro melhor para as gerações seguintes. É também uma causa que tem a vantagem de poder ser apresentada de uma forma universal, sem beliscar crenças ou tradições nem obrigar, na cabeça do eleitor, a pensamentos demasiado elaborados ou decisões complicadas: ninguém lhe pede que mude o mundo; apenas que ajude a salvar o mundo. Quem é capaz de o recusar?

Infelizmente, as coisas não são assim tão simples: para se salvar o mundo, vai ser preciso mudar, primeiro, o mundo.
Voltemos aos alertas, aos estudos científicos e à imensidão de prova já acumulada sobre o aquecimento global. E o que descobrimos, como tão bem compilou o jornalista David Wallace-Wells no seu novo (e para alguns apocalíptico) livro The Uninhabitable Earth. Life After Warming, a situação é “pior, muito pior, do que se pensava”. E é pior porque, como sublinha, mais de metade do carbono libertado para a atmosfera através da combustão de combustíveis fósseis foi emitido nas últimas três décadas. No curto espaço de uma geração. Mais alarmante ainda: no período de tempo em que já tínhamos sido avisados para as consequências da emissão de carbono no aumento médio das temperaturas e, por efeito de cascata, no degelo das calotes polares, na subida do nível das águas, na ocorrência de mais fenómenos meteorológicos extremos, de mais furacões, de mais incêndios florestais. Já sabíamos isso tudo, com os vários cenários dissecados em livros, filmes e séries. Mas sempre se achou que era tudo uma espécie de ficção científica.

Agora também sabemos, como avisou um painel de especialistas das Nações Unidas, que mais de um milhão de espécies animais e vegetais está praticamente condenado à extinção nos próximos anos, por causa dos efeitos do aquecimento global. Ainda vamos a tempo de evitar essa catástrofe? Não, responde Wallace-Wells: “Mesmo que reduzíssemos de imediato em 80% as nossas emissões de carbono, o planeta ia continuar a aquecer.”

A realidade é que o problema não se resolve com simples mudanças de hábitos de vida, por mais nobres e úteis que estas sejam. Também não se vão alcançar grandes resultados apenas pela via fiscal, como a generalização e o aumento da taxa de carbono – que, curiosamente, começa agora a ser pedida pelas petrolíferas norte-americanas, como forma de manter o seu negócio. Este combate que mobiliza cada vez mais cidadãos só pode ser travado a nível global e de forma mais profunda. A principal é a de garantir a total descarbonização energética até 2050, o que implica decisões drásticas e efetivas na próxima década, além de um enorme investimento em investigação e em Ciência. Vai ser preciso desenvolver energia alternativa, sem qualquer rasto de carbono, algo de que ainda hoje todos dependemos. Vai ser preciso, mesmo, mudar o mundo 
– para o salvar.

(Editorial publicado na VISÃO 1370 de 30 de maio)

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