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Rui Tavares Guedes

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Deixem-nos rir

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Rui Tavares Guedes

Jamie Garbutt/ Getty Images

Tem crescido a intolerância à liberdade de fazer rir sempre que um humorista vai “longe demais” – ou seja, fez bem o seu trabalho!

Não é um mito: rir faz mesmo bem à saúde. Diversos estudos científicos já o provaram, explicando a influência que uma boa gargalhada tem no nosso organismo: estimula vários órgãos, reduz o stresse, aumenta a tolerância à dor e até faz crescer a autoestima. O rir, segundo alguns investigadores, fortalece também o sistema imunitário e a circulação sanguínea, já que provoca, no cérebro, a libertação de endorfinas, as hormonas responsáveis pelo nosso bem-estar. Alguns artigos indicam até que é nessa capacidade de rir – e nos efeitos bioquímicos que dela derivam – que se pode encontrar a explicação para a principal diferença entre os homens e os macacos: com o riso, os humanos conseguiram criar comunidades mais alargadas, no início da sua existência, superiores a 100 indivíduos, enquanto os macacos, por mais parecidos que fossem connosco nesses tempos, nunca juntaram grupos com mais de 50 animais. A evolução, a partir de então e com mais interações entre indivíduos, acentuou as diferenças.
Embora de forma inconsciente, foi por causa deste tipo de satisfação e de recompensas que, desde sempre, os humanos procuraram formas de estimular o riso. Em todas as culturas e civilizações, existe a tradição de contar anedotas ou histórias divertidas, para que as pessoas se riam – de preferência em grupo, fortalecendo os laços de socialização. O riso, ora aí está mais uma das suas vantagens, faz aumentar o espírito de pertença e de comunidade: se todos nos rimos da mesma piada é porque partilhamos algo em comum, mesmo que nunca tivéssemos pensado anteriormente nessa possibilidade.

É por isso que o riso tem também um poder transformador, já que estimula, mesmo que implicitamente, a transgressão de uma qualquer ordem estabelecida: o riso é, na maior parte dos casos, fruto do inesperado, seja na punchline de uma piada ou numa ação física inusitada e surpreendente.
A verdade é que, sem darmos conta, andamos a perder a capacidade de rir, pelo menos de livre e espontânea vontade. Admito que esta afirmação possa parecer ridícula, numa época em que há cada vez mais espetáculos de comédia, os humoristas ganharam maior visibilidade e qualquer cidadão tem até a possibilidade de inventar e de partilhar piadas com o universo, através das redes sociais. A questão é que acabámos por acantonar e reduzir o humor a espaços cada vez mais limitados e preestabelecidos. Pior ainda: tem crescido a intolerância à liberdade de fazer rir, tão bem ilustrada pelos coros sucessivos de legiões de ofendidos sempre que um humorista vai “longe demais” – ou seja, fez bem o seu trabalho!

Em tempo de crispação crescente nas sociedades cada vez mais fraturadas e divididas do mundo ocidental, o riso tem andado a perder terreno para a raiva – tão habilmente explorada e acarinhada pelos novos populistas, no mundo inteiro. Perdeu-se quase por completo o sentido de humor nos discursos públicos, dominados sempre pela pose e o verbo do “armar ao sério”, de preferência acompanhado por grandes indignações ou previsões catastrofistas – que, noutros tempos, só dariam vontade de... rir. Em todos e quaisquer temas, conforme se pode observar num rápido zapping noturno pelos canais televisivos de informação, da maioria dos países. Nem é preciso ligar o som, basta ver o ar zangado, os gestos bruscos e as poses iradas da maior parte dos intervenientes, tanto faz que estejam a discutir o futuro da nação ou o resultado de um simples jogo de futebol.

O caso inglês é paradigmático desta realidade. Em tempo de Brexit, com uma sociedade dividida, até o sempre tão refrescante humor britânico parece ter perdido espaço e fôlego – apesar de aquelas reuniões parlamentares poderem ter sido, noutros tempos, um manancial inesgotável de piadas inesquecíveis.

A verdade é que nunca precisámos tanto do riso e do humor como hoje, perante a ameaça do regresso do autoritarismo e do populismo. Convém, por isso, recordar, como exemplo, o momento mais embaraçoso de Donald Trump na cena internacional: o dia em que, ao discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas, afirmou que a sua administração já tinha feito mais em dois anos do que qualquer outra na história norte-americana. A imensa sala, com representantes de todo o mundo, deu-lhe a melhor resposta: uma pura e sonora gargalhada. Não há arma como o riso.

(Editorial publicado na VISÃO 1362 de 11 de abril)

Rui Tavares Guedes

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