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No reino do “entãoeaquilismo”

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A memória é curta, e o apelo para o autoritarismo eterno – a democracia dá muito mais trabalho e exige muito mais sofisticação

Então e a Venezuela de Chávez e de Maduro? Então e as ditaduras de esquerda? No mundo polarizado de hoje, é praticamente impossível debater fenómenos como Trump ou Bolsonaro sem que venha de lá uma voz de uma direita cada vez mais extrema e menos envergonhada a atirar com o clássico contra-argumento do “então e aquilo?”. Em inglês, a técnica de desviar o assunto, acusando de hipocrisia sem refutar os argumentos originais, merece uma expressão deliciosa: “whataboutism”, que em português se traduz para qualquer coisa como “entãoeaquilismo”. Donald Trump, o autointitulado “Hemingway dos 140 caracteres”, já sabemos, é mestre neste mecanismo retórico de não discutir o ponto que não lhe interessa, desvalorizando as suas falhas ao compará-las com outros factos alheios igualmente graves. Em Portugal, há uma direita simpatizante com as vias autocráticas ao estilo Bolsonaro que, nesta sua saída do armário impulsionada pelo l’air du temps, se tem especializado no “entãoeaquilismo”. Há spin doctors de agências de comunicação a fazer afincadamente este trabalho (serão pagos para isso?, por quem?), tal como há gente comum pouco pensante que, à falta de melhores argumentos, acusa de “esquerdalhos” e de “perigosos comunistas” todos os que criticam as investidas antidemocráticas do Presidente eleito brasileiro. É tão curioso como os extremos se tocam: hoje é a direita mais conservadora que usa e abusa da técnica estalinista de propaganda que marcou a era soviética.

Estes tempos estão, mais do que nunca, propícios a que as pessoas se coloquem de um dos lados da barricada. Criticam-se Bolsonaro e a sua retórica radical autocrática? És um “comuna”. Diz-se que 57 milhões de brasileiros têm razões para estar descontentes com o estado da política atual brasileira e com os tempos do PT? Ah, seu grande “facho”! Estar ao centro, a olhar para um lado e para o outro com distanciamento, é qualquer coisa de impossível perante o que se transformou esta troca violenta de argumentos. Há uma permanente confusão de conceitos, misturam-se princípios de democracia e de ditadura com uma polarização esquerda-direita, desce-se o nível das conversas para o patamar do mais básico, numa demanda populista que é hoje o lugar-comum.

Mas se há coisa que as eleições brasileiras deixaram bem claro (mais ainda do que já tinha acontecido com a eleição de Trump) é que Portugal não está à margem da recidiva democrática em curso no mundo ocidental. Com a ajuda do efeito de bolha das redes sociais, começam a ouvir-se cada vez mais vozes defensoras de soluções políticas musculadas. Há, na verdade, uma direita muito mais conservadora do que se dizia e muito menos liberal do que se pensava, a qual se sente cada vez mais à vontade para vir defender o que é indefensável num regime democrático e que tem cada vez mais acolhimento popular. Basta olhar para as caixas de comentários – esse espelho nu e cru do País real. Numa simples notícia do Observador, com o título “Juiz Ivo Rosa decidiu não colocar traficante de armas em prisão preventiva e ele fugiu” (que por acaso não está ainda condenado, mas isso são “detalhes” que nas redes interessam pouco), uma senhora veio dizer “Volta, Salazar, que por mim estás perdoado”. Recebeu mais de 130 “gostos” e muitas achegas concordantes. No mesmo dia, uma ex-funcionária do Ministério dos Negócios Estrangeiros publicou uma foto do ditador português, titulando-a “Grande Homem Grande Estadista”, e mereceu dezenas de comentários elogiosos dos amigos. Não esqueçamos: foi este o País que, em 2007, elegeu Salazar como o “maior português de sempre”. A memória é curta, e o apelo para o autoritarismo eterno – a democracia dá muito mais trabalho e exige muito mais sofisticação.

Se há uma lição que devemos retirar de tudo isto é que tanta falta faz mais cultura democrática, melhor educação para a cidadania e maior conhecimento sobre a História recente e os valores e princípios fundamentais conquistados. Nas condições certas, qualquer sociedade pode virar-se contra a democracia. Em Portugal, alegada terra de brandos costumes, estamos tudo menos imunes a isso.

(Editorial da VISÃO 1340, de 8 de novembro de 2018)