Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A máquina de fazer fascistas

Não é, pois, de estranhar que, com este padrão de funcionamento, o YouTube seja o ponto de partida para o recrutamento da extrema-direita um pouco por todo o lado

Tomemos um exemplo inocente. Vamos ao YouTube procurar algo que a minha filha mais pequena gosta de ver: a princesa Elsa. Numa pesquisa, as primeiras opções apresentadas são de facto a princesa do gelo, ambiente doce e delicado. Ao fim de alguns clicks, começam a surgir outras coisas, digamos, mais radicais: Elsas vilãs, Elsas doentes com altos na cabeça e cabelo a cair, Elsas feias, porcas e más. Dirão que a minha filha de 4 anos tem preferências pelo “dark side” e navega sempre desta forma, motivo pelo qual o algoritmo lhe apresenta estas coisas mais obscuras. Gosto de acreditar que não. O algoritmo do YouTube tende a radicalizar as opções oferecidas, explorando o que é da natureza humana: se nos colocarem opções mais sombrias à frente, temos tendência para ir lá espreitar, da mesma forma como gostamos de olhar para um acidente.

Não é, pois, de estranhar que, com este padrão de funcionamento, o YouTube seja o ponto de partida para o recrutamento da extrema-direita um pouco por todo o lado. Vários estudos comprovam que a rede social, também em matéria política, recomenda e dissemina vídeos cada vez mais extremos, cada vez mais agressivos e “radicalizantes”, empurrando para um canto perigoso pessoas que começaram por entrar num território mais neutro. A internet é hoje o grande recrutador de fascistas, como é o grande recrutador de radicais islâmicos. No ano passado estive a fazer a cobertura das eleições alemãs junto de um grupo militante da AfD, o partido de extrema-direita que conquistou então 13% dos votos e entrada no Parlamento alemão e que voltou a ter um resultado histórico este fim de semana na Baviera, e nunca mais esqueci a frase que ouvi: “Sem a internet isto nunca tinha sido possível.” Os dois elementos da AfD felicitavam-se eufóricos enquanto brindavam a grande conquista de Berlim com uma caneca de cerveja. De facto, não tinha: foi na net que engrossaram as fileiras dos alemães tementes dos imigrantes e refugiados, como foi no Twitter e no Facebook que Trump e Bolsonaro recrutaram uma grossa fatia de cidadãos dececionados.

Madeleine Albright, no seu último e imperdível livro Fascismo, toca no tema logo nas primeiras páginas. Sublinha que a tecnologia tornou possível que organizações extremistas criassem câmaras de ressonância de apoio a várias teorias da conspiração, a narrativas falsas e a pontos de vista ignorantes sobre religião e raça. E, como bem sabemos, repetida as vezes suficientes, qualquer declaração, história ou calúnia pode começar a parecer plausível. Como a História mostrou, o fascismo tende a impor-se devagar e passo a passo. Há um célebre testemunho de um alemão, que viveu a ascensão do Terceiro Reich, que Albright recuperou e diz que cada passo foi tão pequeno que não se via “o processo a desenvolver-se de dia para dia, tal como o agricultor não vê o milho a crescer no campo”. Depois, já era tarde demais. O fardo da autoilusão para este alemão só desmoronou quando ouviu o seu filho, que era pouco mais do que um bebé, a dizer “porco judeu”: “Apercebemo-nos de que tudo, tudo, mudou, e mudou completamente debaixo do nosso nariz.” Hoje tudo muda, devagarinho, à frente do nosso nariz, a olhar para um ecrã. Espero bem não ver a minha filha um dia destes a dizer “imigrantes, rua!” e outras coisas do género.

Yuval Noah Harari, um dos melhores pensadores destes tempos, escreveu nas suas 21 Lições para o Século XXI, que a modernidade abriu um supermercado de histórias. Os movimentos totalitaristas modernos, como o fascismo, criam histórias únicas facilmente difundidas. Recentemente, num texto para a Atlantic, chama os bois pelos nomes: a tecnologia favorece os tiranos. Na esteira do que tem escrito antes, defende que a Inteligência Artificial pode apagar muitas das vantagens práticas da democracia e acabar com os ideais da liberdade e da igualdade.

Como sairmos daqui, eis a questão. O desenvolvimento tecnológico não vai andar para trás nem o Homem deixar de estar online. E a net, bem usada, pode ser um precioso instrumento de liberdade e de conhecimento. Para não sermos vítimas do nosso próprio desenvolvimento e inteligência, é preciso, cada vez mais, educação e informação: educação para a tolerância e para a cidadania, informação fidedigna e isenta. É a única forma de se combater os novos tiranos digitais. Ou, pelo menos, tentar.