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Contra o fim dos livros em papel nas escolas

Um cérebro digital tende a ser mais disperso e impaciente, e por isso tem mais dificuldade de acionar os circuitos de leitura profunda, que são essenciais para a inferência, a análise crítica e a reflexão

Na última década, os gadgets digitais passaram a ser usados como as chuchas e os calmantes do século XXI – atire a primeira pedra quem nunca meteu uma coisa destas na mão de um miúdo para ter cinco minutos de sossego. O resultado está à vista: as crianças e os jovens têm hoje muito mais “tempo de ecrã” do que é aconselhado pelos especialistas, excedendo em larga medida as duas horas recomendadas. Como mãe de quatro crianças, sei bem do que falo, infelizmente: todos os meus filhos, entre os 4 e os 15 anos, passam demasiado tempo nos seus telemóveis e computadores, bastante mais do que eu gostaria. Por mais regras que tente impor, livros que os obrigue (e até suborne) a ler ou longos sermões que dê, contrariar esta dependência digital é mais ou menos como tentar parar o vento com as mãos.

O fenómeno é demasiado recente para se perceber os reais efeitos nas crianças em formação, e no ser humano como espécie, desta transformação profunda na forma como nos ocupamos, socializamos, nos entretemos e aprendemos. Mas alguns estudos começam a fazer luz sobre o que se passa nos cérebros nativos digitais, expostos permanentemente a múltiplos estímulos audiovisuais de curta duração. Há, claro, coisas boas. É dado como certo que impulsos permanentes para escrever mensagens curtas, fazer scroll down, saltar de vídeo em vídeo e de tema em tema estimulam a curiosidade e melhoram a capacidade de multitask e de síntese. No entanto, há um enorme reverso da questão cuja verdadeira extensão ainda está por descobrir. Dizem alguns especialistas que um cérebro digital tende a ser mais disperso e impaciente, e por isso tem mais dificuldade de acionar os circuitos de leitura profunda, que são essenciais para a inferência, a análise crítica e a reflexão. E, explicam os neurocientistas, tudo o que não for usado e estimulado tende a perder-se.

É tão mais relevante estudar e pensar estes danos colaterais de sermos uma nova espécie de “homo conectus”, quando se advogam novos modelos de ensino nas escolas que incorporam ferramentas digitais nas salas de aula. Vários países já testaram, e há por cá quem defenda, o uso de tablets em vez de livros, de vídeos em vez de textos, de notas nos computadores em vez dos apontamentos escritos à mão. Estas soluções de base tecnológica são apontadas por muitos como a panaceia para todos os problemas do ensino: garantem a adaptação aos novos tempos, a preparação para os desafios de um mundo tecnológico e a superação da aprendizagem por mera memorização. Se não podes vencê-los, junta-te a eles: se os miúdos querem gadgets, vamos então chegar a eles através das coisas de que eles gostam. E foi assim que Silicon Valley e a Google em particular tomaram conta das salas de aula nos Estados Unidos da América, onde os e-books começam a estar em maioria face aos livros em papel. Em Inglaterra foi-se pelo mesmo caminho. Mas a verdade é que está longe de estar provado que uma desmaterialização integral dos recursos educativos traga vantagens inequívocas para os miúdos a longo prazo, além da redução do peso das mochilas e das significativas poupanças para os Orçamentos do Estado.

Vários estudos, aliás, provam o contrário: uma investigação feita na Noruega concluiu que os padrões de leitura e compreensão de alunos que liam em papel eram significativamente melhores do que os que liam apenas em digital. Isto porque o papel dá uma noção espaciotemporal importante para a navegação e a memorização de factos. Este tipo de “marcadores de memória” que o papel oferece não tem (pelo menos, ainda) substitutos tecnológicos à altura. Da mesma forma que, vários estudos o dizem, tomar notas e apontamentos de informação 
permite melhor apreender e memorizar 
do que apenas ouvindo ou lendo.

É fundamental que o sistema de ensino se adapte aos novos tempos, estimule a criatividade e a relação de factos e vá além dos métodos escolásticos que obrigam a empinar e a debitar matéria. E tenho a convicção de que as ferramentas digitais podem ser muito úteis, mas apenas como complemento aos velhos livros e aos cadernos. Acabar com o papel nas salas de aula é um perigoso incentivo à superficialidade do conhecimento e à incapacidade de concentração. Ao dar às crianças tudo o que querem e como querem, de forma facilitada, embrulhada e estupidamente digerida, estamos – mais uma vez – a mimá-las demais e a prepará-las mal para o mundo real onde nada se consegue sem empenho e sem esforço.

(Editorial da VISÃO 1331, de 6 de setembro de 2018)