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A lição da canoagem para o desenvolvimento

O desenvolvimento da canoagem tem sido feito à custa das particularidades do nosso território e do espírito de iniciativa e criatividade das pessoas

A maior riqueza de um país concentra-se nas suas pessoas e no seu território. É nesses dois vetores que tem de assentar qualquer estratégia de desenvolvimento económico e social, extraindo o melhor das capacidades de cada ser humano e aproveitando, da forma mais eficaz e sustentável, as potencialidades do espaço geográfico em que nos inserimos. Nem sempre, em Portugal, temos sabido aproveitar e desenvolver, convenientemente, as pessoas e o território. Mas não o fazemos porque, na maioria das vezes, estamos cegos para os melhores exemplos nessa matéria e mostramo-nos incapazes de discernir, com clareza, as razões que estão por detrás de um qualquer êxito individual. É precisamente por isso que vale a pena olhar para o significado dos resultados da canoagem em Portugal, tanto a nível desportivo como económico – sem esquecer, claro, o seu inegável contributo para a autoestima, seja ela regional ou nacional.

Os factos recentes são elucidativos: Portugal acabou de acolher, na pista do Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho, os Mundiais de Velocidade daquela modalidade, com a presença de cerca de 1 700 atletas de 70 países, conquistando duas medalhas de ouro, por Fernando Pimenta, e recebendo elogios unânimes pela qualidade da organização. Dentro de dias, será a vez de Vila do Prado, em Vila Verde, receber os Mundiais de Maratona, com a presença de mais de 1 000 atletas de 50 países – em ambos os casos, sempre com orçamentos absolutamente normais e sem entrar em “loucuras”. Nas duas competições, os barcos utilizados nas provas são, na sua esmagadora maioria, desenhados e produzidos em Portugal. Mais um pormenor ainda e de grande significado: muitos dos melhores atletas destas competições estão habituados a estagiar 
e a treinar no nosso país, beneficiando das condições naturais, do know-how acumulado no desenho dos caiaques e das canoas, bem como das infraestruturas de alojamento entretanto criadas junto dos caudais de água.

Embora muitos ainda não se tenham dado conta, o desenvolvimento da canoagem em Portugal tem sido feito à custa, única e exclusivamente, das particularidades do nosso território e do espírito de iniciativa, entrega, abnegação e criatividade das pessoas que a ela se dedicam. Temos condições naturais ideais para a prática da canoagem ao longo de todo o ano (os nossos rios e lagos não gelam no inverno, como sucede na Europa Central e do Norte) e temos começado a usar isso como vantagem competitiva face a outros países. Temos um conjunto importante de clubes com implantação local e fortes ligações às populações ribeirinhas, 
o que tem permitido o aparecimento de novos e promissores atletas – um feito raro num País sem grande cultura desportiva além do futebol e onde a prática de qualquer atividade física continua a ser negligenciada ou pouco acarinhada.

Temos, no capítulo do alto rendimento, uma mentalidade competitiva já bem disseminada entre os atletas, que os faz querer lutar sempre pela presença nas finais ou por um lugar no pódio, como corolário de um trabalho prolongado ao longo de muitas semanas de estágios e de treino 
– um espírito de “esforço máximo para recompensa máxima”, iniciado em 2004, e que impulsionou a canoagem para a modalidade com melhores resultados em Portugal 
na última década.

E temos o maior fabricante mundial 
de caiaques, Nelo – a marca mais prestigiada na canoagem, cujos barcos ganham a esmagadora maioria das medalhas em todas as competições, sejam Jogos Olímpicos, mundiais ou títulos continentais. Porquê? Porque são os melhores, os mais rápidos, 
os ergonomicamente mais confortáveis 
e os mais inovadores. Graças ao valor das pessoas e à forma como souberam aproveitar as especificidades da nossa geografia para se desenvolverem. É assim que se criam campeões e se dá uma lição de desenvolvimento ao País.