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A moral deles e a nossa

Tiago Miranda

Mais um tiro no pé do Bloco de Esquerda. Deixar que a argumentação entre no nível do “ whataboutism” é uma estratégia típica do statu quo

Nunca percas uma boa oportunidade de roubar um título a Trotsky, li um dia e fixei. Esta semana, foi irresistível, quando a matéria em causa é Ricardo Robles e o grande tiro no pé do Bloco de Esquerda (BE). À velocidade da internet, o assunto parece velho. Mas o papel serve exatamente para registar e refletir sobre acontecimentos relevantes que vão para lá da espuma dos dias. Esta foi a semana horribilis do BE, depois da qual haverá sempre um antes e um depois. Robles, de quem quiseram fazer um autarca-modelo, ficará para a história, não por causa dos feitos ou dons de oratória (ou dos bonitos olhos azuis que maçadoramente lhe apontam), mas por ter sido protagonista do grande momento de desengano do Bloco.

Nunca é demais repetir que Robles, pelo que se sabe ao dia hoje, não fez nada de mal. Não cometeu qualquer ilegalidade. Tem, como todos os outros cidadãos, o direito à propriedade e ao livre comércio. O único problema é que fez, em grande estilo, exatamente aquilo que passou, ele e o seu partido, uma campanha inteira a diabolizar.

O que nos leva à moral deles e à nossa que, bem notou Trotsky, pode assumir contornos diferentes daquela que advogamos para os outros. A presunção e o moralismo são vícios tentadores, mas terrivelmente perigosos. Na vida pública e na política, fazer um percurso a atirar pedras aos telhados dos outros dá soundbite, protagonismo e muitos votos, mas tem um pequeno problema: os nossos telhados têm de ser à prova de pedra também. Basta um estilhaço e lá se vai a cobertura 
e a compostura.

Foi esta a história do Bloco de Esquerda praticamente desde a sua fundação: escolher causas fraturantes e lutar por elas, ao mesmo tempo que aponta o dedo aos vícios, aos poderosos e aos pecadores. Tudo isto assente em figuras carismáticas que, supostamente, simbolizam tudo o que o partido quer ser: inteligente, alternativo e inatacável. Só que não, como se diz agora. A parte do inatacável é complexa, bem sabemos, sobretudo quando um partido se consolida, cresce e se instala. São dores de crescimento, dirão alguns. Acontece aos melhores, dirão outros. Então e os outros todos?, atiram do lado de lá os defensores do Bloco. Outro tiro no pé. Deixar que a argumentação entre no nível do “whataboutism”, ou naquela forma de debater em que não se discutem os erros próprios mas em que se apontam os vícios alheios idênticos ou piores, é uma estratégia típica do statu quo.

A partir de agora, o Bloco perdeu a face no debate da moralidade. Saiu do campeonato dos impolutos. Desgastou a retórica que o trouxe até aqui. E é todo um caminho novo que vai ter de aprender a trilhar.

Habituado a atacar e não a ser atacado, o partido provou agora a sua própria receita. Implacáveis, as redes sociais não perdoaram. Num ápice, encheram-se de críticas, hashtags e memes, Robles e o Bloco marcaram a tendência e fizeram alertas sucessivos de quem vê no episódio um filão perfeito para explorar.

E o partido, em choque e visivelmente desorientado, engasgou-se com o sabor a fel. Em vez de assumir as responsabilidades, tentou desviar as atenções e desculpabilizar o indefensável. Pior a emenda do que o soneto: é tal qual como fazem os outros, os que eles sempre criticaram. Os bloquistas votaram em maioria pela permanência de Robles, mas ele saiu na mesma, fazendo a única coisa que era possível fazer para limpar a face, enquanto os dirigentes do PS e, sobretudo, do PCP assistem na bancada à escorregadela do BE. Parece que os estou a ver ir à estante buscar A Revolução Traída, de Trotsky, e recordar, divertidos, os vícios da Nomenklatura...

(Editorial da VISÃO 1326 de 2 de agosto)