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O diabo sai da garrafa no outono

António Costa e Mário Centeno

Rafael Marchante/ Reuters

Depois de se vender a ideia de paraíso, como é que agora se vai explicar que afinal as nuvens nunca se foram embora e que a folga orçamental teve muito de acaso conjuntural?

Gozem bem as férias que em setembro vem aí o diabo”, terá dito por esta altura, há dois anos, Pedro Passos Coelho. Aproveitando a deixa magnífica, António Costa apressou-se logo em afirmar, de sorriso na cara, que “felizmente o diabo já lá vai”, confiante no virar definitivo da página da austeridade, ou disso fazendo--nos crer. Durante dois anos, fez bem o papel de declarar que o papão estava bem longe e que o bicho mau não nos ia comer. Estávamos a salvo de entidades que nos levariam para dificuldades e bancarrota. Tão bem feito foi o papel, que quase todos se convenceram por cá de que a coisa não dava apenas para safar durante uns tempos, mas sim que isto ia, afinal, extraordinariamente bem – um mar de rosas económico e orçamental, com milhões de turistas e muito investimento, onde nos iríamos banhar alegre e eternamente. Depois de anos de desesperança, foi fácil desejar e acreditar num cenário paradisíaco.

O cenário idílico manteve-se até agora, quando António Costa e Mário Centeno começaram finalmente a emendar a mão ao discurso vitorioso. Isto vai bem mas não dá para regabofes, tenham lá calma que o diabo já lá vai mas pode voltar se começarmos a fazer disparates, alertam agora. “Não temos dinheiro!”, disse alto e bom som o primeiro-ministro a quem quiser ouvir, cara apontada à sua esquerda. Não que tenha sido acometido por um assomo de lucidez economicista ditada por uma nova realidade que entretanto descobriu, mas antes porque se iniciam as dores de cabeça da preparação do Orçamento do Estado para o próximo ano, e o discurso dos parceiros de geringonça começou, com seria de esperar, a mudar drasticamente de tom. Se isto vai bem, vamos lá então fazer com que vá bem para todos: as folgas orçamentais são para gastar e os problemas para resolver, exigem.

“Não há dinheiro para a saúde, para a escola pública, para as infraestruturas, para a defesa dos serviços públicos. Não há dinheiro ou estão a ir buscar onde não devem?”, perguntou há dias Jerónimo de Sousa, exigindo que o PS seja capaz de sacudir “essa política de direita”. O Bloco de Esquerda também engrossou a voz, dizendo que antes do Orçamento em outubro há a discussão do pacote laboral em setembro, e aí não aceitarão nada menos do que “parar com o empobrecimento, e repor salários e pensões”. Começou o jogo político de esticar a corda até ao limite (há quem lhe chame ultimatum), mas outra coisa não seria admissível aos dois partidos sem que o seu eleitorado não lhes viesse cobrar isso adiante em eleições.

Depois de se vender a ideia de paraíso, como é que agora se vai explicar que afinal as nuvens nunca se foram embora e que a folga orçamental teve muito de acaso conjuntural? É que grande parte destes bons resultados – um défice de 0,9% do PIB, um desemprego em mínimos desde 2008 e previsões de chegada a 2020 com excedentes orçamentais estruturais 
– foi conseguida por influência do ciclo económico benevolente, mais do que pelos cortes que o Governo fez ou pelo que deixou de gastar. Mas promover isso seria desvirtuar méritos próprios e o discurso do “milagre económico” foi empolado, dentro e fora, como se não houvesse amanhã e a dívida pública não continuasse a tocar máximos históricos 
– 250,3 mil milhões de euros.

Faz-me lembrar a velha lenda brasileira do Familiá, o diabinho familiar que vive dentro de uma garrafa e atende ao dono com riquezas quando este abre a garrafa e lhe pede desejos. Lá pelo outono – quando apertarem as negociações, para convencer agora a opinião pública e a esquerda de que o dinheiro não dá para tudo –, vai mesmo ser preciso tirar o diabo da garrafa. E, já agora, pedir-lhe um desejo bem chorudo.

(Editorial da VISÃO 1323, de 12 de julho de 2018)