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Deixem-nos saltar!

Não se pode culpar apenas o sistema de ensino por as crianças não saberem brincar

Quando se descobre que quase metade das crianças, entre os sete e os oito anos, não consegue saltar à corda, a culpa deve ser atribuída a quem? E quando se toma consciência de que uma em cada três crianças, do mesmo grupo etário, tem dificuldade em participar num jogo infantil como o “rabo da raposa”, a quem se deve pedir responsabilidades? Finalmente, quem deve dar explicações pelo facto de 40% das crianças que frequentavam o 2º ano de escolaridade no ano letivo passado, se mostrarem incapazes de executar um movimento corporal como o da cambalhota para a frente? Quem tem a responsabilidade por estes resultados fracos, ao nível da capacidade motora e da destreza física, evidenciados pelo relatório agora conhecido sobre 
as provas de aferição realizadas há cerca de um ano? Quem se acusa? Quem assume a culpa?

Os resultados das provas de aferição servem, geralmente, para desencadear uma troca de argumentos e acusações sobre as políticas, as práticas e o funcionamento do sistema de ensino. Sempre com o foco, como sabemos, nas insuficiências manifestadas pelos alunos nas chamadas disciplinas nobres, em áreas do Saber como a Matemática, a Língua Portuguesa, a História ou a Geografia. Com as consequências que se conhecem: de ano para ano, vamos sabendo que alguns indicadores sobem, quase sempre na mesma proporção com que descem outros. E, de imediato, estalam as controvérsias, sempre apimentadas com declarações de dirigentes de sindicatos 
de professores, de associações de pais, por vezes até de antigos governantes. 
Ou seja: um debate quase sempre limitado e confinado aos agentes do sistema educativo.

Ao incluir, pela primeira vez, as 
Expressões Físico-Motoras nestas provas de aferição, e logo em crianças que estão ainda a iniciar o seu percurso escolar, 
o Ministério da Educação deu um primeiro passo para alargar esse debate para lá dos muros das escolas. Como estes resultados o demonstram: não se pode culpar apenas o sistema de ensino por as crianças não saberem brincar. É preciso questionar também que tipo de educação promovemos nas nossas casas, enquanto famílias. E quais os valores e referências que andamos a perseguir, enquanto sociedade no seu todo.

Claro que existem níveis diversos de responsabilidade. Até porque nem todos os exercícios exigem o mesmo grau de aprendizagem. O saber dar uma cambalhota para a frente exige, por exemplo, a orientação de alguém que ensine a colocar a cabeça na posição certa e ajude, nas primeiras vezes, a dar o impulso necessário para que a criança possa sair do movimento numa direção perfeita e levantando-se com os pés juntos. 
É, claramente, um exercício típico de uma aula de Educação Física, que é da responsabilidade do sistema de ensino – e que devia ser valorizada ao mesmo nível do de todas as outras áreas “nobres” do Saber.

Mas, sinceramente, saber saltar à corda ou saber jogar ao “rabo da raposa” (ou “ao lenço” ou à “apanhada”...) implica, única e exclusivamente, uma coisa: dar tempo às crianças para brincarem umas com as outras. Mais: promover essas brincadeiras como ferramentas essenciais para o seu crescimento. E sem medo de que possam esfolar os joelhos, sujar a roupa ou ficar cansadas. Aceitando que, nessas brincadeiras, elas precisam de correr riscos, de desafiar os seus limites, de aprender a trabalhar em equipa, de resolver desafios, de inventar soluções. No fundo, as ferramentas que, nos dias de hoje, mais são valorizadas pelos maiores 
e melhores empregadores mundiais.

As crianças precisam de saltar. 
É urgente, pois, que lhes deem tempo e espaço para saltar. E isso é competência das escolas, e também das famílias. 
De todos nós.