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Somos todos Centeno, ou quase

Patrícia de Melo Moreira/ Getty Images

Foi esta conjuntura económica feliz – evidentemente bafejada por um otimismo e pela mudança de discurso político que António Costa tão bem protagonizou – que permitiu ao Governo encolher o malfadado défice sem medidas mais dolorosas

Na edição do El País de domingo, 
a capa do suplemento económico usava uma imagem ilustrativa: um Galo de Barcelos com pernas do acelerado galo-corredor Bip Bip. Um completo artigo esmiuçava depois as “Lições de Portugal” para o mundo, explicando como “um país governado por uma coligação 
de esquerda consegue a maior taxa de crescimento do século, o menor défice e o reconhecimento da Europa por uma política económica que sai da ortodoxia”. Não fora um editorial menos empolgado, em que 
se menciona o “erróneo” tratamento procíclico da recessão e o facto de a economia crescer à custa dos baixos salários, e dir-se-ia que foi uma das raras vezes em que os nuestros hermanos nos tiraram o chapéu em matéria económica, rendidos aos resultados da dupla Costa-Centeno.

Centeno, convidado a escrever para 
o jornal sobre o brilharete nacional, resume-o como uma “história de êxito”. Depois 
de uma década perdida, a economia portuguesa “ressurgiu com um fulgor renovado”. Portugal virou a página, congratula-se o ministro das Finanças, que conseguiu um défice de 0,9% do PIB em vez dos 1,6% que estavam inscritos no Orçamento do Estado para 2017, atalhando caminho na rota da redução do défice acordada. Prevê agora chegar a 2020 com excedentes orçamentais estruturais – ponha o dedo no ar quem acreditava nisso há três anos.

Cá no burgo, a discussão desde que foi anunciado este valor subiu de tom. Como é possível, ouviu-se imediatamente bradar algumas vozes entre os companheiros da geringonça. Como é que não se aproveitou 
a folga orçamental para gastar mais e desapertar um pouco mais a corda do pescoço dos portugueses? Lá veio a habitual apologia da chapa ganha, chapa gasta (que nos trouxe até aqui) e a tradicional discussão (que diz cada vez menos às pessoas) se o Governo governa mais à esquerda ou à direita.

Pior do que a discussão pública é, no entanto o desconforto que começa a ser impossível de esconder dentro do próprio Governo e que se agudizou com a divulgação destes dados. O ministro da Saúde, aquele que mais tem penado com as famosas cativações de despesa sujeitas a aprovação do Ministério das Finanças – e quem tem colocado o Sistema Nacional de Saúde em estado de fragilidade alarmante –, foi de uma elegância a toda a prova. “Somos todos Centeno”, disse Adalberto Campos Fernandes. A política sempre se fez assim: com uma distância grande entre o que se diz em On aos microfones e o que se pensa e comenta nos corredores. E nos corredores do poder há evidente desconforto em várias áreas, como a Saúde, o Planeamento e Infraestruturas, a Educação ou a Cultura, e acusações difíceis de refutar de setores da sociedade paralisados. Basta lembrar 
a capa da VISÃO sobre a necessidade urgente de obras na Ponte 25 de Abril (à qual se seguiu um imediato anúncio de obras), ou as notícias do Público sobre o péssimo estado das ferrovias, e a ideia que ficou 
de que não eram resolvidas graças a um intransigente e implacável Centeno.

A seu favor, Mário Centeno tem, porém, argumentos importantes. Grande parte 
do bom resultado foi conseguido por influência do ciclo económico benevolente, mais do que pelos cortes que fez ou pelo que deixou de gastar. Foi esta conjuntura económica feliz – evidentemente bafejada por um otimismo e pela mudança de discurso político que António Costa tão bem protagonizou – que permitiu ao Governo encolher o malfadado défice sem medidas mais dolorosas. Claro que não interessa promover isso, desvirtuando méritos 
próprios nestes resultados.

E depois há o fator que muitos dos que se dizem keynesianos preferem tentar passar ao lado. É que a dívida pública continua 
a 126% do PIB (e teve em fevereiro o maior aumento em quase um ano), e é nos momentos de folga que é importante reduzir 
o peso do défice. Quando o ciclo inverter – e vai com certeza inverter (vide a bolha imobiliária que não para de engordar) –, será necessário ter alguma margem para não 
regressarmos às velhas fórmulas de austeridade. Era isso afinal que pressupunha 
o próprio Keynes: uma intervenção do Estado e o aumento da despesa pública durante 
as crises para ajudar à recuperação mas também uma poupança durante as conjunturas favoráveis. Uma coisa sem a outra seria muito desejável, mas é mais ou menos como acreditar no Pai Natal.