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As fissuras que a VISÃO ajudou a fechar, com mais uma capa para a História

Congratulamo-nos com a decisão de avançar com obras na Ponte após denúncia da VISÃO. É muito melhor assim, mas é pena que tenha de ser assim. Há despesas que não têm preço, riscos que um País não pode correr

Desde sempre que se ouvem histórias de peças que caem da Ponte 25 de Abril. Muitas são mito urbano, outras são dos carros ou dos camiões que circulam na ponte, outras ainda são objectos atirados pelas janelas dos veículos. Raríssimas devem ser, garante qualquer engenheiro especialista na matéria, peças da estrutura da própria ponte. Não é normal, não pode ser normal que de qualquer ponte caiam quaisquer peças. E muito menos o é quando da Ponte 25 de Abril caem parafusos de três quilos e 60 cm de comprimento, como aconteceu recentemente num episódio que só por pura sorte não matou três pessoas.

Esta história, relatada pela VISÃO na edição que hoje chega às bancas, é apenas a ponta do icebergue de um caso sério de problemas estruturais de que a travessia mais importante do país padece e que está a alarmar quem leu o explosivo relatório secreto do LNEC. Neste documento, a que a VISÃO teve acesso e divulga nesta edição, numa grande investigação de Catarina Guerreiro, pede-se uma intervenção imediata e reparações urgentes, dando-se conta de “fissuras que aumentam em número e em comprimento”, “brechas” e pernos (uma espécie de parafusos) soltos. Nada bons augúrios, na opinião dos técnicos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, que escreveram, preto no branco, que, se nada for feito, pode existir “perigo de colapso”. Esclareça-se já: a ponte é segura, permanentemente monitorizada e não está a cair, não é caso para pânicos. Mas para que assim continue as autoridades competentes pedem obras urgentes. Dizem mesmo que pode ser necessário no curto prazo restringir a circulação de pesados de mercadorias para aliviar o peso.

Apesar dos sucessivos alertas e relatórios das autoridades que fiscalizam constantemente a Ponte, a resolução dos problemas na estrutura que começaram a ser detetados já há três anos tem vindo a ser adiada. E, como apurámos, a Secretaria de Estado das Infraestruturas aguarda há seis meses pela libertação de verbas para estas obras, por parte do Ministério das Finanças. E quando, na terça-feira, a VISÃO questionou o governo sobre esta situação não obteve quaisquer respostas de Mário Centeno ou da sua equipa.

Mas, como por magia, a autorização para a realização das obras por que muitos aguardavam com ansiedade crescente surgiu literalmente de um dia para o outro. Num eficaz golpe de asa de comunicação, o governo antecipou-se à saída da revista para as bancas (a VISÃO fecha terça-feira à noite, está nos assinantes à quarta e na quinta nas bancas) e anunciou a realização de obras no valor de 18 milhões de euros.

Congratulamo-nos com a decisão. É muito melhor assim, mas é pena que tenha de ser assim. Há despesas que não têm preço, riscos que um País desenvolvido não pode correr: este é um deles. António Costa sabe-o melhor do que ninguém: estava bem perto (como ministro da Justiça) quando, em 2001, viu cair Jorge Coelho, ministro do Equipamento Social, depois da tragédia da Ponte de Entre-Os-Rios, que matou 59 pessoas. Sentiu-o cravar-se na pele de primeiro-ministro com a tragédia que assolou o País com os incêndios que vitimaram mais de uma centena de pessoas em 2017 e fez cair a sua ministra da Administração Interna. É claro que não podia admitir agora qualquer espécie de facilitismos ou adiamentos que colocassem a segurança em causa. Entretanto, a oposição quer saber mais e vai chamar o Ministro e o LNEC ao Parlamento com caráter de urgência.

No dia em que a VISÃO oferece um livro com as capas mais marcantes dos seus 25 anos de vida, que celebra este ano, há mais uma primeira página que entra para a História. É este jornalismo de responsabilidade, credibilidade e de serviço público que sempre nos moveu, e é este o compromisso com os leitores que renovamos a cada edição.