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Há uma agonia no Interior, não se esqueçam

RTG

É gritante ver o estado de abandono a que estão devotadas aldeias e povoações onde, ainda há cerca de uma década, era possível encontrar cafés apinhados de jovens

A unidade de Portugal, com as fronteiras políticas mais estáveis e duradouras da Europa, não se deve à geografia mas à obra humana, conforme Orlando Ribeiro tão bem enunciou e explicou, na primeira metade do século XX, quando revolucionou as bases do estudo da geografia em Portugal. Num território de contrastes, “disposto de través na zona mediterrânica, bem engastado numa península que é como a miniatura de um continente”, segundo as palavras do geógrafo, o território português tinha tudo, na verdade, para ser cultural e politicamente muito dividido e fragmentado. Nomeadamente, como sabemos, entre o Norte e o Sul, em que o primeiro possui características atlânticas e sempre foi mais povoado, enquanto o segundo é mais mediterrânico e menos habitado.

Nos últimos anos, no entanto, tem-se acentuado outro contraste e, novamente, em consequência muito mais de opções humanas do que da própria especificidade da geografia. É uma divisão entre o País habitado e o País desertificado. É a divisão entre o País que está continuamente no centro da atenção mediática e o outro que apenas consegue chamar a atenção por causa das tragédias que se abatem sobre as suas gentes. É a divisão entre o País que concentra o poder e o País que tem sido esquecido por todos os poderes.

Basta voltar a percorrer os territórios do Interior para perceber a lenta agonia em que caíram as regiões mais afastadas das grandes cidades do Litoral. Tenho-o feito, com alguma frequência, nos últimos meses, por razões pessoais, em viagens de carro que, umas a seguir às outras, me fazem despertar para a dimensão de uma realidade que, sinceramente, não imaginava que pudesse ser já tão grande e devastadora.

É gritante ver o estado de abandono a que estão devotadas aldeias e povoações onde, ainda há cerca de uma década, era possível estacionar o carro e encontrar 
cafés apinhados de jovens em amena cavaqueira, além de um movimento constante de pessoas nos largos fronteiros às igrejas. Agora, muitos desses cafés estão fechados, a maior parte das casas mostra-se de janelas trancadas e sem luz, e é preciso esperar pela hora da missa para se ver alguns (poucos) idosos a saírem da igreja. Em vilas e cidades do Interior, algumas delas ainda há pouco tempo com um dinamismo interessante, tem sido praticamente impossível encontrar um restaurante aberto nas noites de sábado – não há clientes suficientes, dizem. Lembro-me também, e não foi assim há tantos anos, de passar várias noites de Consoada numa aldeia beirã, no meio de centenas de pessoas, em volta de uma imensa fogueira de Natal que aquecia os corpos e os espíritos. Regressei, no último Natal, à mesma aldeia e ao mesmo ritual da fogueira: mas desta vez éramos só algumas dezenas. E quase todos nós com idades compreendidas entre os 35 e os 
65 anos – os mais velhos estavam enclausurados em lares de idosos, e os mais novos, simplesmente, já não existem por ali ou perderam os laços familiares que, no passado, ainda os agarravam ao local.

Este abandono intensificou-se, ao que parece, nos últimos anos, quando, curiosamente, o Interior até ficou mais próximo do Litoral, graças à rede de autoestradas que rasgou o País em todas as direções. O problema é mesmo esse: passou a ser fácil sair de lá. O êxodo tornou-se mais simples, eficaz e rápido, até porque, apesar das declarações grandiosas ou das retóricas eleitoralistas, pouco ou quase nada se fez de significativo que permitisse fixar as pessoas no Interior, dar-lhes qualidade de vida e criar vantagens competitivas para as empresas que lá queiram investir e instalar.

A unidade do País devia ser um desígnio nacional. Todos o sabemos, é verdade, mas também todos rapidamente o esquecemos – como fazemos ao Interior.

(Editorial publicado na VISÃO 1301 de 8 de fevereiro)