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Imunes ao sofrimento alheio?

Lucilia Monteiro

Anestesiados de más notícias, tornamo-nos indiferentes, deixamos de nos comover da mesma forma

Sentir a dor do outro. Foi em 2004 que os cientistas conseguiram pela primeira vez visualizar como o nosso cérebro processa o sofrimento alheio. Num estudo pioneiro, ficou provado que as partes do cérebro ativado pela dor de outra pessoa são as mesmas ativadas quando experimentamos a nossa própria dor. Ou seja, a empatia e a compaixão têm processos neurológicos intensos, e é como se o nosso cérebro se colocasse efetivamente no lugar do outro. Esta conclusão – importantíssima até mesmo para o estudo das relações sociais mas também para assunções em modelos económicos – suscitou perguntas intrigantes à neurociência cognitiva: uma vez que a zona ativa do cérebro é a dor, será que analgésicos ou lesões cerebrais nessa área podem diminuir a propensão para a empatia? Podemos “anestesiar” a nossa capacidade de nos emocionarmos com o sofrimento alheio?

Os cientistas concluíram que sim. Mas atrevo-me a dizer que não seriam precisos ratinhos nem “scanners” cerebrais para se provar o que vemos acontecer todos os dias um pouco por todo o lado: seja com os atentados terroristas, a tragédia dos refugiados ou as vítimas dos incêndios, a forma e a intensidade como reagimos às primeiras notícias e às imagens de sofrimento alheio é substancialmente diferente de como lidamos com isso quando, por assim dizer, nos habituamos a elas. Anestesiados de más notícias, tornamo-nos indiferentes, deixamos de nos comover da mesma forma. Mais desastres, mortes e sofrimento? Temos pena, mas siga.

Os danos imensos e as vidas desfeitas causadas pelos incêndios encaixam que nem uma luva neste tipo de processo mental. Em junho, um país em choque com os contornos trágicos dos incêndios de Pedrógão Grande mobilizou-se de forma nunca vista para ajudar. Conseguiram-se quase 17 milhões de euros entre donativos de particulares, de empresas e até de governos estrangeiros. Destinam-se principalmente à recuperação de habitações, mas também há verbas que estão a ser aplicadas na educação ou no apoio à agricultura.

E depois começa o sistema a funcionar… ou a emperrar. Autarcas e populares queixam-se porque os resultados demoram a aparecer. E as pessoas e empresas que generosamente fizeram donativos não sabem bem onde para o seu dinheiro e como está a ser utilizado, porque ainda não se veem esses resultados palpáveis.

Quando aconteceram os incêndios de 
15 de outubro, a reação, como seria de esperar, foi muito diferente. Uma semana depois, o assunto quase que tinha desaparecido das conversas, das notícias e das redes sociais. E, desta vez, não passam dos 4 milhões os donativos em dinheiro recolhidos. Por força das tristes circunstâncias, houve um país que se habituou à tragédia. Imunizou-se ao sofrimento alheio. O que é que isso diz de nós como nação?

Embora com menos vítimas mortais, estes fogos deixaram um rasto de destruição muito mais avassalador, com um impacto económico negativo incomparável na região. Mais do que nunca, é preciso ajudar, apoiar, mobilizar um país para, como lhe chamou a VISÃO num projeto que lançou em junho e reativou agora, colocar o coração no Centro de Portugal. É por isso que decidimos dedicar o mês de novembro inteiro a reportar os esforços destas comunidades para se levantarem das cinzas. Temos equipas de jornalistas, fotografia e vídeo no terreno todos os dias, a reportar e a fazer diretos, a contar histórias, a dar conta de necessidades e a apontar o dedo às falhas. O que trazemos hoje é uma parte destes testemunhos, onde identificámos verdadeiros heróis que se mobilizaram para salvar, reconstruir, ajudar e dar voz a quem sofre.

Há menos dinheiro doado, mas há muitas mais ações de voluntariado e de solidariedade quase individual que meteram as mãos à obra e foram diretamente para o terreno. Famílias que encheram os carros e se meteram à estrada com eletrodomésticos, sacos de cimento e rações para oferecer. Empresários que decidiram reconstruir escolas às suas custas. O próprio Governo foi mais célere na resposta e cedeu onde há cinco meses parecia irredutível. Porque nem tudo é mau e nem todos se imunizaram à dor alheia. Deixemo-nos inspirar por esses.

(Editorial da VISÃO 1290, publicada a 23 de novembro de 2017)