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Não há maturidade quando se choram os mortos

Luís Barra

Faltou a este governo muita coisa nesta segunda tragédia que assolou o País: competência, coordenação, diligência, meios técnicos. Mas tudo custaria um pouco menos se não tivesse faltado também humanidade. Melhores palavras

Encolhemo-nos na dor: a cabeça pende para a frente, o queixo afunda em direção ao aperto que sai do peito, as mãos esfregamo-las na cara, as lágrimas mornas deixam rasto pela face no sentido da gravidade. A chorar, sobretudo a chorar os mortos que são nossos, somos todos iguais. Nem ricos nem pobres, nem doutores nem analfabetos, nem adultos nem crianças. Já deviam saber isso quando nos exigem que sejamos maturos. Que sejamos adultos racionais e responsáveis. Que sejamos capazes de entender condições atmosféricas excecionais, avaliar contingentes no terreno e digerir relatórios e números. Ninguém pode ser maturo quando só lhe apetece chorar. Foi a segunda vez, foram tantos mortos outra vez. O chão ainda está em brasa, os corpos ainda estão quentes, o inferno arde nas retinas de quem se salvou por um triz mas perdeu tudo. Pedem-nos que sejamos adultos?

Faltou a este governo muita coisa nesta segunda tragédia que assolou o País e matou pelo menos 37 e feriu 71 pessoas*. Comprovam os relatórios, mas não é preciso ser especialista para perceber o óbvio: faltou competência, coordenação, diligência, meios técnicos. Mas tudo custaria um pouco menos se não tivesse faltado humanidade. Melhores palavras. Numa hora de aflição nacional, um político tem de sentir como um de nós, falar como um de nós. Reconhecer culpas, admitir erros, prometer fazer melhor. Não nos venham com números e factos, não nos peçam capacidade analítica, compreensão, razão.

A ministra Constança Urbano de Sousa, com resultados tão devastadores à sua responsabilidade, não pode falar das férias que não teve. Espera que alguém tenha pena dela enquanto há mortos para chorar? É injusto, já que ninguém faria melhor? Sim, mas quem é que vai confiar na sua palavra agora? Quando tudo falha de forma tão evidente e dramática, o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, não pode dar como resposta que as comunidades sejam “proativas” e se “autoprotejam” em vez de ficarem “todos à espera de que apareçam os nossos bombeiros e aviões para resolver os problemas”. Em cada português um bombeiro? Isso não acalma os idosos que vivem no interior, as crianças, os mais fracos.

Para dizer o que disse, mais valia que António Costa não tivesse dito nada. Ele que tão bem sabe ler os sinais políticos, devia saber que nesta altura as palavras escaldam, que a pele empolada pelas chamas é mais sensível. Não pode, claro, garantir que o mundo para de girar, que os icebergues não vão derreter, que o aquecimento global não vai gerar fenómenos climatéricos excessivos, que outros incêndios devastadores não vão voltar a acontecer. É claro que vão. E, sim, é verdade que tantos erros acumulados na gestão do território e da floresta não se resolvem com uma varinha mágica. É claro que as falhas no sistema de prevenção e combate aos incêndios do qual ele é corresponsável, quando foi o ministro dessa pasta, não se resolvem de um dia para o outro.

Mas o que se espera de um governante num momento de aflição é que reconheça que algo falhou quando, pela segunda vez em três meses, morrem tantas pessoas, que nem tordos, no meio das chamas. Uma morte é uma morte, não é uma “inevitabilidade”. Esperamos respostas e medidas urgentes, é evidente – há responsabilidades a tirar de tudo isto e substituir as cadeias de comando é evidentemente uma medida mais do que necessária. Mas um povo que sofre precisa também de consolo e ânimo, como um filho que chora precisa de um pai que lhe dê um abraço. É simples, é humano. Paternalista? Talvez... O chão ainda está em brasa, os corpos ainda estão quentes. 


Artigo publicado na edição 1285 da VISÃO, de 19/10 (*dados à hora de fecho, pelas 15h de terça-feira)