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Rui Tavares Guedes

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Diretor Executivo

Turistas a mais ou a menos?

Editorial

Rui Tavares Guedes

Patrícia de Melo Moreira/ Getty Images

O problema não é o número de turistas. O problema é o mesmo de sempre: a ganância

Todos os dias, há 3,3 milhões de turistas, em média, a deslocarem-se pelo mundo. Cerca de metade desses, quase 1,7 milhões, fazem-no na Europa e são contabilizados e incluídos naquele número sempre que dormem num estabelecimento registado, seja um hotel, um alojamento local ou um parque de campismo. A Portugal, desse número global, chegam, em média a esses estabelecimentos, menos de 60 mil turistas por dia. É muito ou é pouco?

A resposta a essa pergunta anda a inflamar ânimos um pouco por todo o lado, em especial nalgumas das mais belas (e frágeis) cidades europeias. Mas quando olhamos para o que pode suceder nos próximos anos, tendo em conta as tendências que se adivinham, é melhor que nos preparemos. Claro que cada um acredita no que quer e tem, acima de tudo, o direito a “ler” o futuro com os olhos que mais lhe convém, em especial nos domínios onde ainda se percebem algumas incertezas. Por isso, mesmo que todos os indícios indiquem o contrário, ainda é admissível que alguns achem que a chamada uberização da economia é um fenómeno passageiro ou até que os grandes centros comerciais vão conseguir resistir ao modelo mais instantâneo do comércio eletrónico (embora nos Estados Unidos da América comecem a multiplicar-se, já hoje, o encerramento dos emblemáticos shopping malls). Também se compreende, até por uma questão de resistência, que há quem continue a insistir que o avanço da inteligência artificial não vai destruir assim tantos empregos. Ou até que o automóvel sem condutor é uma utopia semelhante à dos carros voadores – aqueles que, há meio século, todos pensavam que iam ser uma das novidades do ano 2000. De uma coisa, no entanto, devemos perder, desde já, as dúvidas: a não ser que exista um cataclismo planetário ou um novo conflito mundial, o número de turistas vai continuar a crescer. Todos os anos e a um ritmo sempre elevado. É um fenómeno universal, diretamente ligado à melhoria geral das condições de vida em todo o mundo e da massificação do transporte aéreo. Mas também um reflexo imediato desta era da globalização em que vivemos.

Os efeitos económicos deste crescimento veem-se em todo o lado. Nalguns países, mais preocupados com o desenvolvimento sustentável, o turismo tem sido um fator decisivo para a melhoria das condições de vida das populações e até para a imagem dessas nações no mundo. Noutros países, no entanto, embora seja a principal matéria de sustento de muitas pessoas, quase pouco ou nada contribui para a economia local e para o desenvolvimento, já que as receitas vão quase todas para as empresas estrangeiras que exploram a oferta turística – e a palavra explorar é usada neste caso com inteira propriedade.
Em Portugal, conforme revelam os últimos números, o turismo tem sido decisivo para o crescimento da economia, nomeadamente ao nível do PIB e da criação de emprego. Mas a sua influência estende-se também à balança comercial, devido ao seu peso nas exportações. E, como é absolutamente visível nas principais cidades, foi o turismo que acabou, de forma indireta, por fazer ressuscitar o setor da construção, graças à reabilitação urbana.

É essa transformação do espaço urbano, em especial da sua utilização, que começa agora a gerar, em muitos locais, as manifestações contra o turismo, contra a descaracterização dos bairros históricos, contra a perda de identidade, contra a falta de habitação a preços normais para a população local. Em Espanha, já deram um nome a esse movimento: “turismofobia”. E já se registaram até ataques violentos contra turistas – perpetrados, de certo, por pessoas que já foram turistas noutros locais...

Voltemos, portanto, à pergunta do início: temos turistas a mais ou a menos? Sinceramente, o problema não é o número de turistas. O problema é o mesmo de sempre: a ganância. O problema está na ânsia de querer ganhar sempre mais a todo o custo e no imediato. Sem pensar no futuro. Portugal, não nos iludamos, precisa de mais turistas para continuar a crescer. Mas precisa desses turistas durante muito e longos anos, de forma sustentada. Só assim, acredito, não regressaremos ao tempo em que nos lamentávamos de que não tínhamos turistas suficientes.

Rui Tavares Guedes

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