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Rui Tavares Guedes

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Ir a banhos para a realidade

Editorial

Rui Tavares Guedes

Se Portugal entrasse todo de férias, iríamos, se calhar, perceber melhor muito do ridículo em que temos vivido

Embora raramente nos lembremos disso, as férias são uma invenção recente e, vendo bem as coisas, são bem capazes de ser a melhor invenção do mundo. Pelo menos, do mundo em que vivemos, já que aquilo a que chamamos ter férias significa, na prática, aceder a um estado cada vez mais raro de liberdade: o direito de termos tempo para nós... mesmo que nem sempre sejamos capazes de exercer esse direito na sua plenitude.

As férias são também um avanço civilizacional, um indicador do desenvolvimento dos países, uma boa medida para avaliar a felicidade das populações. Não é por acaso que os países mais avançados da Europa são os que garantem mais dias de férias aos seus trabalhadores. E, por consequência, também são esses os países que possuem mais e melhores economias ligadas ao turismo, promovendo a mobilidade dos seus cidadãos e o desenvolvimento das várias regiões. Na Europa do pós-guerra, as férias foram decisivas para a economia, mas também para o desenvolvimento social, já que a liberdade de ter tempo e poder viajar acabou por criar um novo cosmopolitismo, mais global e democrático. E foi também muito por força dos movimentos de cidadãos em tempo de férias que, aos poucos, se foram abrindo as fronteiras na Europa, criando um espaço comum e mais livre.
No tempo presente, as férias permitem uma vantagem adicional: a de poder, nem que seja por poucas semanas, mudar de realidade. E isso, acredito, é mais importante do que se pode pensar, à partida. Ao sairmos das nossas rotinas, trocarmos as voltas aos horários habituais, ficamos com a capacidade de observar o mundo que nos rodeia com outros olhos. Se a isto acrescentarmos ainda a possibilidade de mudança geográfica, as férias dão-nos então um outro bónus: a oportunidade de entrarmos, de facto, numa outra realidade. De certeza, que já todos experimentámos essa sensação: conforme os dias vão passando, vamos desvalorizando problemas que, pouco tempo antes, nos tiravam o sono e, sem darmos conta, começamos a dar importância a pequenas coisas que, anteriormente, desvalorizávamos. Ao mesmo tempo, graças à distância do local de trabalho e fora da pressão, somos capazes de encontrar soluções muito mais criativas e engenhosas para questões que, como por milagre, deixam de ser complicadas.

Acima de tudo, e esse é o meu ponto, o facto de termos mais tempo para nós dá-nos a oportunidade de podermos parar para pensar, libertar-nos de alguns vícios de raciocínio e ganhar maior autonomia para poder descobrir outras realidades. E isso, sinceramente, é, porventura, o que o País mais precisava nos tempos que correm.

Numa época em que se multiplicam cada vez mais as “certezas absolutas” sobre tudo e sobre nada, em que os assuntos que dominam a atualidade mediática raramente conseguem ultrapassar a fronteira do clickbait fugaz e instantâneo, e em que começam a surgir, perigosamente, discursos de ódio e de intolerância, não nos fazia mal, de facto, podermos todos parar um bocadinho para pensar.

Era importante também que, com espírito aberto, mergulhássemos todos no país real. Sim, no Portugal que existe, de facto, e não naquele que entra todos os dias nos nosso cérebros, de forma quase automática, através das redes sociais cada vez mais monocórdicas, e dos debates acalorados sempre sobre os mesmos temas e em que todos só querem, à vez, falar mais alto, e defender aquilo que já sabíamos de antemão que iam defender, sem nada de novo para acrescentar.

No fundo, o que devíamos mesmo era aproveitar este verão e começar a olhar para nós, para o País, para as nossas fúrias e tristezas, angústias e polémicas, com os olhos dos estrangeiros que cá vêm passar férias. Aqueles que chegam com o olhar distanciado, a mente menos inquinada pelos nossos pequenos e grandes dramas, sem interesses próprios nem opiniões formadas sobre a nossa realidade. Se Portugal entrasse todo de férias, iríamos, se calhar, perceber melhor muito do ridículo em que temos vivido.

Opinião publicada na VISÃO 1273 de 27 de julho

Rui Tavares Guedes

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Diretor Executivo